Um mezzo no sofá, depois da refeição partilhada, na mandriice...
A linha do horizonte esvai-se no ténue fogo_fátuo, sob as torres iluminadas de São Vicente e a cúpula de Santa Engrácia contrastante com o espelho escuro do Tejo: assim começa o entardecer desta nova estação, esgotada que ficou pelas noites e aniversários que a antecederam. Um matrimónio na força aérea de monsanto após buscas no cacém e entregas no senhor roubado, às voltas no aeroporto após dias de insónia, eléctrico para o bairro com o amor de janela aberta para subir ao terraço do bloco cinzento do combro e todos os patamares coloridos do parque beijo_Te tour do cemitério de benfica até à polícia de miraflores, a antena azulescente da PT sintoniza-nos ali na violência domésticas das gentes bem vestidas que se confrontam e suas crias (found florence) e no lounge e na casa do niza onde fica o transmissor até à madrugada em paz, à porta dos barbadinhos no alto da porciúncula - um requiem para este sonho...
E começo a semana por pôr o carro no mecânico mas antes passo pela bomba do colégio para abastecer e verifico os preços com a senhora de sempre, encontro o senhor_rapaz encarregado da formação aguardando a aprovação das candidaturas às modulares; enquanto o depósito enche, cumprimento o senhor azevedo que fechou o mercado de baixo mas já circula por aí na venda de novos produtos e arranco, contornando a rotunda e entrego o veículo nas mãos do senhor teixeira para revisão, mudança de meio escape, filtros e pneus (também soldar o espelho lateral ) e sigo a pé para a escola; cumprimento a senhora negra em processo com o colega da noite louca, também crio a rotina de, nestes três dias, beber o café platina do maxi_pan onde encontro o vizinho de baixo e a rapariga de armações brancas do curso efa na biblioteca (aqui volto para tabaco, numa das noites, quase a fechar, depois de repetir o trio de maços durante dois dias pela manhã). A senhora da portaria saúda-me com entusiasmo, bem como o senhor do quiosque em frente, pela energia do equinócio; estou com os senhores silva de portefólios e níveis trocados, almoço com os colegas no príncipe do alto e a família sousa nos montes floridos da descida rural da cidade, sou de novo maternalmente transportado (tadi_nho!) e revelo o segredo médico na troca de alergias - primeira nocturna com o senhor H para relatórios, que termina com irritação pelo plágio; acordo na paternalidade da queda, peço para avisar e continuo até à entrega - não houve operação, só culpa e evitamento. Transporto computadores e mesas, deliro com coca-cola, feijoada de rabo na boca e a programação do nosso festival - chamado à recepção pelas cópias e enganos a cobrir, a coisa piora pelo cansaço óbvio, tudo se imprime e o senhor A aguarda a minha saída que se efectua sob um chuvasco necessário. Feliz, já com o novo selo no pára-brisas, lavo as superfícies da jóia e aqui estou "de volta p'ró meu aconchego". Amanhã ponho-me à estrada, depois da terceira noitada e telefonema do bisnau (porque sim - a devolver) e do mini (porque vem para cá - talvez...).
Fica este, publicado há três anos, também já tive trinta e um. (homenagem ao irmão velho)
1) Concluo agora um ciclo de preparação para o que há de_vir. Jantei entre as árvores de Jessé e o tesouro, entre os monges_modelo a beber cerveja na companhia da revolução omnisciente do pinguim e seu comparsa (isto assim soa a gang de massamá mas é só bem_querer!) e sobrinho e namorado extra_galego. Love calls para nova inspiração sobre a revelação drag dos anos setenta, com John Waters no seu melhor! Divine! Agora é só esperar por dois tribunais de ascensão gradual, um casamento, homenagem escolar ao pai, irmão no seu dia e pelo da progenitora. Ao descer a rua, antes do telemóvel tocar, assobiava isto:
(com toda a excepção dos odores espalhados nesta noite...)
2) Aproveito o facto de poder publicar nestas páginas para anunciar em directo que não deverei estar presente no quarto jantar bloguista. E isto, não por ter medo de me apaixonar - again (até porque continuo...), mas porque é aniversário da senhora minha mãe e sendo eu um filho querido da mamã e não indo visitá-la desde o Natal até à Páscoa, tenho esta oportunidade para a minha descensão de tempo incomum, já que me sacrificarei nesta cidade pelo amor de todos, expondo-me desde a quaresma até ao pentecostes, a quem me quiser creer.
3) Já do_mingo, acordei assim, disposto a meter-me pela história dos passos nesta Masada conquistada aos bracari e assim vendida ao fiel estrangeiro - fiquei a saber que para além do antony, também o zorn tocou aqui a sua regressão - ananás em receita proporcionada, duche de água fria e correr pelos teatros, termas e mosaicos do museu que levou duas décadas na sua montagem... Desculpem o excesso de links mas é como me sinto. Até_já!
P.S.- Também um tempo de muita pregação por aqui...
Já vão alguns meses, muitas viagens e tempos partilhados... De novo, regresso a correr da terra das mulheres tevolosas, de candeias às avessas, para buscar-te no balneário bracarense. Juntos, por mais três dias apenas, onde o primeiro acto concerne à exposição de japoneiras na sua pátria: muita gente em fotos e reportagens entre tabuleiros relvados (faltavam os cartazes - favor não tocar), espalhados na Biblioteca Almeida Garrett para o concurso; muitas espécies classificadas, melhor ou pior expostas sobre os mesmos, bem como os antigos catálogos de produtores da zona; e no final, ao fundo, atelier de reciclagem de cápsulas de café para criar pétalas e corolas e lições práticas de poda e enxertia. Segundo acto e sinfonia na casa trapezoidal: como não temos assintura ou lugares pré-estabelecidos, a solução é pedincharmos bilhetes a quinze minutos da entrada e a sorte benfazeja os audazes - os três separados, fico ao centro encarando os obreiros das notas, de coração aberto e olhos fechados, surpreendendo-me nos cinco andamentos, sendo eu próprio criatura e criador do momento. Saímos atordoados para o terceiro acto: celebrarmos o encontro com um rodovalho de bons ares em matosinhos, passeios entre os prédios hipoalérgenos renascidos do ventre das fábricas, circundamos a árvore grossa e invertemos, em boa hora, a marcha na senhora, para voltarmos a casa, com paragem para tabaco e jornais. Hoje, na calma da chuva aparente e confortável, duas roscas para os dois, postamos poesia, depois do brinde às flores e à musica, aguardando o(s) óscar(es)...
"A verdadeira errância, dizia-se Orlando quando ainda se falava consigo, era da ordem do desvario e ele nem ainda uma só vez perdera o tino. Fora uma escolha assisada entre perder-se nos confins da Ásia de luxo onde um mulato peralta e adolescente daria nas vistas hostis e perder-se nas hordas do trabalho braçal, ameaçado e bem-vindo, à vez. Extenuado, emudecido, oculto numa identidade e num silêncio mental de pária , oculto nas baixas tarefas de onde podia desaparecer sem rasto, ao risco de greve, sublevação, linchamento, tão calado ao insulto como à fraternidade, mentindo a origem, ocultando o crime e o destino nos mesteres mais duros e mais imundos. Preso por um fio de oiro, Pixim d'Or, mas solto na escória de um continente, portuga e preto, pau para toda a obra a interpretar-se bronco e dócil. Que desempregado ariano com subsídio quereria refocilar em tamanha dejecção? Não quiseste escolher, és escravo, lembrara ele quando pensava ainda.Orlando, ora Emílio ileso aos detectives, não era escravo. Sobrevivia bem ao estridor de tanta matraca de trabalho duro. A tanta invenctiva dura. Nada o suplantava, ninguém. As mãos são de lixa, os pés de crosta, o chão mais baixo dez centímetros, o corpo, esguio embora, empedreniu.
Um ano atrás, um ano inteiro, um só golpe de machada teria bastado para estalar até à goela aquele crâneo liso.
Acorda, Orlando-Emílio, com a estranheza de ser sempre em outro tempo e lugar."
Maria Velho da Costa - Irene ou o Contrato Social, 2000(a oito páginas da folha cativa)
Acabado de ver, com uma série de crimes noutras...
Acordo na cama com o pingar da fresta na caixa de madeira da persiana que goteja para o interior do quarto (um antiga racha no prédio cinzento de azulejos amarelos). Ouço o sino dar-me o tempo real e os carros que abrem sulcos no chão molhado, pelo resvale aquático. Levanto-me e corro para a sanita (ainda a guiness de ontem!); quando lavo a cara, percebo que contei mal uma badalada e decido ligar o deezer da jornada nocturna enquanto arrumo a sala (computador e mantas de viagem no sofá amarfanhado). Visto-me ao som dos pássaros femininos, recupero a roupa quase limpa, sem banho e calço as botas secas no aquecedor a óleo. Lenço debotado ao pescoço e casaco de pele com capuz; telemóveis na bolsa e no bolso, carteira e factura da internet para pagar. Escovagem e enxaguamento bucal, passagem de mão para accionar e alisar popa capilar, medicinas e laranjas verdes para refrescar a brisa; anel no dedo, despejo cinzeiro e pego no guarda-chuva portátil. Saio apressadamente.
Cruzo-me com os fregueses da eucaristia. No pólo cheio de senhores ao balcão, o empregado vem ter comigo ao quiosque e peço-lhe tabaco e jornal. Como os que tem estão reservados, deixa-me com o maço e a nota na mão enquanto a madonna celebra baixinho no soturno covil de reformados, desocupados e intoxicados. Volta, paga e com o euro restante, atravesso a passadeira. No café central, peço a rosca habitual e volto para a rua. Paro cá fora, a contemplar a calma, e acendo um cigarro – maximinos não é mais que uma rotunda em slow motion levemente agitada, com gradeamentos azuis. Pela pouca luz, por entre a chuva miúda, noto as obras dos correios e os prédios de habitação com publicidade - aperto o rolo de papel e saco de pão contra o peito e abro o chapéu, aguardando a passagem de dois transeuntes que também dali se escapam, percorrendo a calçada, perseguindo um terceiro e notando o carro lavado à porta do meu bloco. Engano-me nas chaves iguais e fecho a porta de vidro e ferro atrás de mim. Subo até ao terceiro, abrindo a cor bege marmoreada dos mosaicos e o brilho verde dos cristais embutidos no friso lateral.
Tiro o leite do velho frigorífico a encher de gelo, encho o meio púcaro reultilizando-o e à caneca do bocage, para aproveitar o que falta do café em galão alentejano. Abro o pão e leio as notícias: depois da tempestade, dos sismos e enxurrada, decido juntar tudo e dar-lhe a versão holística, sem pena, perda ou piedade. E continuar... sempre.
Caríssimos todos Chega ao fim esta epopeia, norte a sul ou vice-versa, há que ir e voltar para regressar de vez, agora em paz, pleno de amor para um novo começo. E acredito na ressurreição da carne mas, principalmente, do espírito. E em comunhão, ainda melhor.