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09 junho 2011

Buried_Knife

Can I explain this to you? Your eyes
are entrances the mouths of caves
I issue from wonderful interiors
upon a blessed sea and a fine day,
from inside these caves I look and dream.

Your hair explicable as a waterfall
in some black liquid cooled by legend
fell across my thought in a moment
became a garment I am naked without
lines drawn across through morning and evening.

And in your body each minute I died
moving your thigh could disinter me
from a grave in a distant city:
your breasts deserted by cloth, clothed in twilight
filled me with tears, sweet cups of flesh.

Yes, to touch two fingers made us worlds
stars, waters, promontories, chaos
swooning in elements without form or time
come down through long seas among sea marvels
embracing like survivors in our islands.

This I think happened to us together
though now no shadow of it flickers in your hands
your eyes look down on ordinary streets
If I talk to you I might be a bird
with a message, a dead man, a photograph.

The Knife - Keith Douglas (no sexagésimo_sétimo aniversário da sua morte)

21 maio 2011

Homme(X) au(X) Bain(X)

Das Männerbad - Dürer (1471-1528)
As eleições são daqui a quinze, exactamente no aniversário deste senhor! Como sei que me vou esquecer (posso estar a_banhos!), programei para reflexão um primeiro vídeo belissimamente musicado e quatro outras opções de produção (para o melhor e pior dos cenários), bem como as previsões de António Rosa na Cova do Urso para decidir o dia das nossas partidárias personalidades.


Lips, ripe as the berries in June
Red the rose, red the rose
Skin, pale as the light of the moon
Gently as she goes

Eyes, blue as the sea and the sky
Water flows, water flows
Heart running like fire in the night
Gently as she goes

la, lalalalalalala
la lala, la lala
la, lalalalalalala

Lips, ripe as the berries in June
Red the rose, red the rose
Skin, pale as the light of the moon
Gently as she goes

Eyes, blue as the sea and the sky
Water flows, water flows
Heart running like fire in the night
Gently as she goes

15 maio 2011

Lord of the Rings


Love is a burning thing
And it makes a fiery ring
Bound by wild desire
I fell in to a ring of fire

Primeiro foi o polegar: uma anilha aberta bem decorada, na mão esquerda, assinalava a via. Depois outro, no indicador direito, discreto e simples, aproximava-nos: a distância entre palmos e braços abertos bem medidos trouxe o dedal da eterna aliança; após um quarto de século já temperado, esta era a terceira vez. E perder as algemas fez-me guerrear de paixão – atirei-o pela janela da Nay, até voltar, sete anos depois, a encontrar o mesmo padrão; desta enfiei o dito no anelar em terras peregrinas ao que, aguentando quase um giro de emoção e tempo semelhantes, desapareceu. Há ainda descrições de um piercing no sobrolho e do uso de cock_rings! (Descubro-o passada uma semana desta postagem, debaixo do colchão).

Still round the corner there may wait
A new road or a secret gate
And though I oft have passed them by
The day will come at last when I
Shall take the hidden paths that run
West of the Moon and East of the Sun.

 The Lord of the Rings - J.R.Tolkien

13 maio 2011

Drift_Down

Heute sind so viele ganz allein.
Es gibt auf der Welt so viele Tränen,
und Nächte voller Einsamkeit.
Und jeder wünscht sich einen Traum,
voller Zärtlichkeit.
Und manchmal reichen ein paar Worte,
um nicht mehr so allein zu sein,
aus fremden Menschen werden Freunde
und grosse Sorgen werden klein.
Ave Maria.
Ave Maria.
Kalt ist die Reise durch die Nacht.
Es gibt so viel Wege zu den Sternen,
und jeder sucht eine Hand, die ihn hält.
Vielleicht ist jemand so traurig wie du,
komm, und geh auf ihn zu.
Verschliess heut nacht nicht deine Türen,
und öffne heut dein Herz ganz weit
und lass den anderen Wärme spüren,
in dieser kalten Jahreszeit.
Ave Maria.
Dôme épais le jasmin,
A la rose s'assemble,
Rive en fleurs frais matin,
Ah! glissons en suivant
le courant fuyant:
Dans l'onde frémissante,
D'une main nonchalante,
Gagnons le bord,
Où l'oiseau chante,
L'oiseau, l'oiseau chante.
Dôme épais, blanc jasmin,
Nous appellent ensemble!
Magnificat anima mea Dominum
Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.
Quia respexit humilitatem ancillæ suæ: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.
Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.
Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.
Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui.
Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.
Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,
Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.

Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.

09 maio 2011

Slapp_Happy(People)

O propósito desta menção vem pela descoberta da ópera Camera produzida em 1991 pela BBC, baseada na marcha da bela Melusina, escrita pelo terceiro, composta pelo primeiro e cantada pela segunda. Há onze anos voltaram a "ligar-se" para dar uma tournée pelo Japão e registar esta obra. As origens da banda explicam-se abaixo.
 Act 4 (ask for water) #25 - #29


Mendelssohn Op32 MWVP12

Ao ver o seu terceiro projecto experimental ser rejeitado pela editora, Anthony Moore pediu à namorada da altura (futura mulher), Dagmar Krause, que se lhe juntasse na voz com que quis inovar; como estava rouca, convidaram o amigo que estava de visita, Peter Blegvad, para o fazer; ao ouvi-lo tão desafinado, ela acedeu.

From their debut album (1972) Sort of, I choose this song:
Then the first song in the B-side of the second LP (1974):
 The homonymous album (reversed) track, recorded with Faust:
Nesse ano lançaram ainda (com Henry Cow) Desperate Straiths e no seguinte In Praise of Learning. Vinte e dois anos depois reuniram-se apenas os três para gravar Ça Va. Após esta experiência, separaram-se. So, play it again!

01 maio 2011

As Coisas X

Cartazes Panfletários: À volta e no espelho do guarda-fato, por baixo e dentro da secretária_estante, fui colocando em tenra juventude recortes de imagens que me impressionavam e inspiravam; as paredes começaram a acumular posters e gravuras de viagens, mais tarde postais recebidos ou por escrever, fotos oferecidas ou pinturas sugestivas, flyers de design cativante e mesmo páginas de revistas iam sendo espalhados ao acaso no forro dos sucessivos albergues. Um dia a dormir, a Joana desenhou-me o rosto, outra vez dois corpos estilizados por castrar e até um mamão aquático no seu jardim, com os pincéis que estava a utilizar; em nahuatl tentámos um amor com cadáveres_esquisitos. Todas são manifestos mas há uma programação antiga da cornucópia com as peças infra, que trouxe da primeira vez que lá fui, sempre afixada cujo verso tem uma cabeça a vomitar sobre um fundo vermelho – atrás da porta ou ao fundo dos corredores.
A Missão (1979)
Mauser (1970)
Müller reading from the Children's Songs by Brecht - "May Song"

E porque hoje é o dia delas - a minha faz 63! 

29 abril 2011

Border_Line


Os fantoches de Kissinger/Com as minhas tamanquinhas
Entretanto a medusa mundana continua a estender os seus tentáculos, atravessando as fronteiras que julgámos eternas para nos confrontarmos na nossa alteridade em migrações de que sempre fizeram parte os exílios forçados por guerras, pestes e fomes sentidas e decididas pelos interesses individuais, fraquezas, arrogâncias e usuras dos que teimam em existir. Afinal partilhamos mais do que espaços: sou pelo partido dos animais todos, à excepção do homem cujas vidas continuam a expurgar-se repelentemente em abraços fatais.


Mulher da erva/Cantigas do maio
Já com a noite toda em vinte e três, visito os antigos templos orgíacos abaixo do ginásio no monte dos livros e zonas costeiras de permanências estivais; adormeço até à tarde da preparação molhada (com amigas que querem ganhar o jogo da rolha), em descida abrupta por caminhos enviezados na margem do vascão que atravessamos nas passadeiras, onde nos rebolamos nas águas ludras e subimos a custo íngremes passagens enquanto o céu escurece em faixas até ao solo e exala ruídos extremos.


Os eunucos/Traz outro amigo também
No regresso ribacima, nova paragem de espera por encontros fortuitos, surge o jovem banqueiro que também o fez, e assim nos desejámos e sentimos, calma e sôfregamente com intervalo para outra parelha rodada, repetimos e confidenciamos os trajectos coincidentes, aguardando contactos; antes da saída, o nómada acabado de chegar do irão confessa a sua admiração no desenvolvimento e aceitação locais, apenas limitado nessa liberdade de expressão e reunião entre géneros mas plenos de outros cruzares.


Está a acabar o prazo de denúncia do contrato deste arrendamento. E depois?

26 abril 2011

Schönen_Steine

E para relaxar das festas e celebrar a nova vida com uma gargalhada, passamos a publicidade:

Ainda a contagem da feist, uma rapsodia animal e o cocas_james murphy!


Tudo isto, graças às amigas que me trouxeram à cidade livre!

17 abril 2011

Palm_Branch

Toda uma noite de hesitação e intermitência na decisão de descer até à Terra sem Sombra para ver as mãos que tocariam ali tão perto, ajudar a salvar os peixes com que cresci. Mas assim não foi, nem a ida à cidade_berço para o almejado concerto nos seus paços (acontecera no dia anterior), o que me fez encontrar a cooperativa em frente, descer o largo e percorrer as movimentadas e nocturnas muralhas até às bouças que roçam a universidade... Hoje o último passeio da bicha nesta estadia: cruzamos o rossio, as esplanadas cheias que acendem os jogos de água da avenida, as tascas escondidas e a subida pela galeria. Não me conformo e a pesquisa rápida leva-me à casa das artes para o encontro de um brilhante elenco/encenação com o encanto redescoberto nas palavras do Rei. Regresso pela cósmica colina vendo as luzes no vale sob um luar estrondoso...
Chegada ao Chipre - Otelo
Amanhã é tempo de procissões na paróquia, abertura do festival e a praia eterna. Vivam os passos em volta! Com sorte, aqui ser coroado no dia seguinte...
Água de Beber - Frank Sinatra/Tom Jobim

09 abril 2011

Razor's_Edge III

E este é o último post desta série que aqui marca "a linha" enquanto assisto a isto! Depois explico... (procurem no you tube)


Não há dúvida sobre o facto de os planetas do nosso sistema solar e até mesmo os que giram em torno de estrelas inconcebivelmente longínquas serem habitados. Provam-nos os nossos fantasmas, os nossos projectos e os nossos temores; são governados por hipóstases insaciáveis dos tiranos terrícolas ou por reflexos monstruosamente aumentados das burocracias sem alma que sofremos, enquanto cientistas rigorosos e precisos até ao ponto mais impiedoso – quer dizer, mais científicos ainda do que os habituais – forjam máquinas de uma irrepreensibilidade obsessiva. Neles os insectos crescem até alcançarem proporções humanas e erguem-se nas patas traseiras, como há séculos sucede nos nossos pesadelos, enquanto a linguagem é abolida em benefício de uma comunicação telepática imediata, como insensatamente tantas vezes desejámos. É o humano em toda a parte, nos próprios confins do universo: não consentimos que seja o que for escape ao nosso jogo, ao nosso olhar, às nossas manias. A lepra da vida consciente estende o seu contágio de planeta em planeta, salta de sol em sol, pelo menos ao nível do alucinatório. Ao imaginar habitantes de outros mundos, dir-se-ia que o homem se resigna modestamente a perder a sua posição central de umbigo do cosmos. Nada disso: um assomo de supremo orgulho, que certifica definitivamente a sua radical incapacidade para a medida, ei-lo que conquista mentalmente as galáxias, reparte imagens de si próprio pelas estrelas, frenético por ainda não poder ainda ir lá maculá-las em pessoa. Cada aparente retrocesso de antropocentrismo é na realidade um reforço tornado mais subtil da pretensão à dominação do cosmos, pelo menos teórica, que constitui essencialmente esse vício inextirpável. Com efeito, o sistema de Galileu é mais antropocêntrico do que o de Ptolomeu, mas menos do que o de Newton ou Einstein. A Terra é demasiado pequena para satisfazer a cósmica vaidade humana, e descentraliza a inteligência em sistemas cada vez mais sofisticados, a fim de que todo o universo gravite em torno de um pensamento que ocupa não só o centro, mas também a periferia e cada parcela do que existe, embebendo das suas leis a última partícula de poeira estelar que flutua na porção de éter mais mínima. Pouco importa a forma extravagante que se imagine para os seres de outros planetas, são monstros que pensam e isso irmana-nos a eles, porque tão-pouco é de outro modo que o homem se define. Homens-centopeia, homens com tentáculos e ventosas, homens-água, homens-chama, homens-pirâmide ou homens-cilindro, é tudo a mesma coisa: homens, todos eles, em primeira e última instância, seres que refletem, que se distanciam indefectivelmente de si próprios e do que os rodeia, que odeiam ou ambicionam, que se compadecem , que se afligem, que se organizam e se revoltam contra a organização. O cenário da comédia humana cresce, complica-se e torna-se exótico; o guarda-roupa renova-se, o atrezzo sofistica-se; o argumento continua monotonamente imutável. O homem irrigou os astros com a sua inquietação e escuta depois com terror o infinito silêncio dos espaços: os invasores que o seu susto aguarda vêm devolver-lhe a visita impertinente que a sua fantasia fez ao perturbar a perpétua irrelevância do vazio. A nova progenitura que descerá dos céus, segundo cantou Virgílio, não nos traz outra novidade que não seja uma exarcebação das nossas tendências, uma acentuação até ao ridículo ou o atroz dos nossos usos. Queremos contaminar de reflexão todo o universo, alargar a anomalia da consciência às nebulosas mais remotas, exagerar noutros planetas as complicações que sofremos neste. Queremos salvar-nos, é claro, e já só podemos correr numa direcção: uma vez conhecido o espírito, já não podemos recuar, apagar o seu rasto, procurar refúgio no mineral; é preciso fugir para diante, dotar de inteligência todas as formas e todos os mundos, para, finalmente, fazer explodir o pensamento por cima e regressar ao paraíso da harmonia através de uma intensificação da diversidade, de uma sábia enfatização do conflito... Somos os extraterrestres, desde que conseguimos olhar a partir do exterior, de longe; o monstro que urde a nossa invasão de outro mundo é a esperança dessa diferença radical que o tédio do espírito não se resigna a abandonar. Já só do espaço intergaláctico podem chegar até nós os bárbaros cujo impulso invasor cumpra os nosso anseios mais secretos. Ou, melhor ainda: só noutros planetas ainda mais decadentes e perplexos do que o nosso poderíamos exercitar-nos enquanto bárbaros e aquecer o nosso sangue entorpecido com o saque de civilizações exaustas, por comparação com as quais a nossa própria espécie aborrecida se transformaria num ideal de vitalidade.

A infância recuperada – Fernando Savater 1976 (Ed. Ambar 2006- Pag 121/2/3 Tradução Miguel Serras Pereira)

08 abril 2011

Razor's_Edge II

Por um momento, suspendemos a hipocrisia saudável que nos certifica como sensatos e empreendedores cidadãos de estados baseados no progresso da ciência e voltamos a ver-nos como realmente somos: habitantes do improvável, vizinhos do nada, protagonistas de um pesadelo de tal desolação e desamparo que o único meio de conservarmos o tino é tentarmos esquecer, na medida do possível, a nossa mísera condição. Os defuntos que tínhamos apartado radicalmente da nossa vista antes de começarem a infundir-nos pavor saem da sua tumba e mostram-nos a sua repugnante putrefacção animada, recusando-se a esse tranquilo desaparecimento que com assustada solicitude para eles decretamos; voltam “conscientes do verme que os rói”, como anunciou Blake. Perante este retrato sinistro do espectral, as mentes sãs, os fígados correctamente operacionais, a boa gente na qual a marcha do mundo se apoia, recuam em direcção ao bom senso, ansiosos de ar puro, sol e borboletas. Mas exceptuam-se certas criaturas delirantes, viciosamente atentas aos seus próprios arrepios, que depois de terem conhecido a chicotada do pavoroso já não sabem passar sem ele (...)

(...) O “mau gosto” afronta o bom: a facilidade de encobrimento dos estragos da morte que define a civilização nela baseada. O invisível reclama, declara e faz pagar a sua ocultação acentuando com um colorido berrante os seus traços mais alarmantes. A morte perde a sua distância e aparece tal como realmente é: dona e senhora , centro do mundo, negro aroma da existência toda, referência obrigatória de cada gesto, de cada olhar. Mas esse desvelamento trabalha contra ela, o aparecer sem mantos dilacera-a. Dos seus faustos e estereótipos, surge uma nova esperança de vida, um vigoroso furor que se agita e levanta o morto, extraindo outra vitalidade mais duradoura do que deveria ter sido extinção perpétua. Os cemitérios enchem-se de animação nocturna, as ruínas vêem-se de novo povoadas por habitantes desconsolados, nos bosques e nos pântanos mefíticos crescem novas espécies inimagináveis. Ainda que, finalmente, a morte consiga impor o seu equilíbrio e o pó torne ao pó, o império do mais necessário viu-se por um momento comprometido poe uma excepção intolerável: insinua-se a suspeita de que uma vontade indomável pode armadilhar a morte, procurando as suas armas no lodo da própria corrupção.
Mais ainda: a comprovação do horroroso é já subversiva no âmbito da normalidade garantida pela resignação ao deplorável, pelo menos ao nível das aparências. O próprio tom da narrativa arrepiante encerra um propósito da refutação da morte, em lugar de exprimir um comprazimento mórbido no seu triunfo, conforme por vezes crê o observador superficial. É a indiferença, por fingida que seja e disfarçada que esteja de “maturidade”, que passa a certidão de óbito, e não o clamor do medo. Habituarmo-nos a um mal é colaborarmos com ele, por muitas razões científicas que se apresentem da necessidade de acatamento.

A infância recuperada – Fernando Savater 1976 (Ed. Ambar 2006- Pag 180/85-86 Tradução Miguel Serras Pereira)

07 abril 2011

Razor's_Edge I

A viagem é sempre vista pela sabedoria épica como qualquer coisa de significativo: para o narrador, nunca se peregrina impunemente. Mas os estatutos do iniciado variam do triunfo mais irrefutável da força até ao acatamento não menos decidido da debilidade, da solidão ou do aniquilamento. A iniciação não tem lição unívoca; ao seu mais alto nível não lhe são alheias nem a sabedoria nem a ignorância. Todas essas perspectivas foram já minuciosamente recenseadas pelos críticos modernos. Eu gostaria de insistir aquinalguns aspectos da própria materialidade da viagem, numa das suas variantes possíveis: a descida.
Descer é abismarmo-nos no que nos sustenta, é desfundarmos o fundamento que nos subjaz. Perigosa missão, ou até mesmo enlouquecedora, pois tudo parece indicar que o solo nos sustenta precisamente na medida em que conserva a sua opacidade, o seu obstinado encerramento perante o nosso olhar indagador; abri-lo, de uma maneira ou de outra, é inutilizá-lo enquanto apoio: a pesquisa que o descobre aos nossos olhos, furta-o no mesmo lance aos nossos pés. Mas não só a nossa estabilidade física, também o nosso equilíbrio mental, a própria razão, podem chegar a vacilar neste empreendimento; descendo radicalmente – quer dizer, não ao descermos uma escada, que é qualquer coisa de elevado, mas ao descermos ao que realmente está por baixo – perdemos as nossas coordenadas mais estáveis e temos de inverter estranhamente os nossos pontos de referência. O que nos sustentava passa a ser o que nos cobre; o fechado rodeia-nos e dá-nos passagem, ao passo que o aberto adquire uma longínqua indeterminação opaca; os saltos aproximam-nos da pedra enquanto as quedas nos acercam do ar... A cabeça necessita de alicerces sólidos, não menos do que os pés, e este exercício de perversão geográfica pode transtorná-la. Todavia, em todos os tempos, o que está por baixo foi particularmente tentador: é aí que se encontram o reino dos mortos, mas também os tesouros; aí os segredos de todas as coisas, que nos permitirão controlá-las melhor quando voltarmos à superfície; aí o mais profundo, o mais fundo, que por intuição visual se nos afigura o mais estimável; aí jaz ainda tudo o que apodreceu, mas também o esquecido, o temido, o que deve ser escondido, quer dizer, ser enterrado; aí nos esperam as trevas mais opacas – mortos ou vivos acabaremos por a elas ir ter, descermos vivos previne-nos e prepara-nos para a descida definitiva -, tudo o que é negado à luz do dia; aí, por último, por baixo, deve estar o centro, pois naõ podemos esquecer que rastejamos sobre uma esfera – e esse centro não é tanto uma equidistância geométrica como um ponto de poder espiritual, o terrível umbigo divino, que açambarca o significado do mundo. Do inferior, do obscuro, do fechado, da terra saímos um dia; aí voltaremos uma destas noites. Desce-se para se surgir outra vez, de novo, quer dizer, para renascer; este segundo nascimento proporciona-nos forças renovadas, uma disposição vital impecável que o contacto com o inferno temperou, bem como uma familiaridade com o fundamental que faz com que o irremediável perca o seu horrível prestígio.

A infância recuperada – Fernando Savater 1976 (Ed. Ambar 2006- Pag 68-69 Tradução Miguel Serras Pereira)

06 abril 2011

Double_Helix


Esa-Pekka Salonen - Helix amanhã na gulbenkian por Joana Carneiro

In the last days of the fourth world I wished to make a map for those who would climb through the hole in the sky.
My only tools were the desires of humans as they emerged from the killing fields, from the bedrooms and the kitchens.
For the soul is a wanderer with many hands and feet.
The map must be of sand and can’t be read by ordinary light. It must carry fire to the next tribal town, for renewal of spirit.
In the legend are instructions on the language of the land, how it was we forgot to acknowledge the gift, as if we were not in it or of it.
Take note of the proliferation of supermarkets and malls, the altars of money. They best describe the detour from grace.
Keep track of the errors of our forgetfulness; the fog steals our children while we sleep.
Flowers of rage spring up in the depression. Monsters are born there of nuclear anger.
Trees of ashes wave good-bye to good-bye and the map appears to disappear.
We no longer know the names of the birds here, how to speak to them by their personal names.
Once we knew everything in this lush promise.
What I am telling you is real and is printed in a warning on the map. Our forgetfulness stalks us, walks the earth behind us, leaving a trail of paper diapers, needles, and wasted blood.
An imperfect map will have to do, little one.
The place of entry is the sea of your mother’s blood, your father’s small death as he longs to know himself in another.
There is no exit.
The map can be interpreted through the wall of the intestine—a spiral on the road of knowledge.
You will travel through the membrane of death, smell cooking from the encampment where our relatives make a feast of fresh deer meat and corn soup, in the Milky Way.
They have never left us; we abandoned them for science.
And when you take your next breath as we enter the fifth world there will be no X, no guidebook with words you can carry.
You will have to navigate by your mother’s voice, renew the song she is singing.
Fresh courage glimmers from planets.
And lights the map printed with the blood of history, a map you will have to know by your intention, by the language of suns.
When you emerge note the tracks of the monster slayers where they entered the cities of artificial light and killed what was killing us.
You will see red cliffs. They are the heart, contain the ladder.
A white deer will greet you when the last human climbs from the destruction.
Remember the hole of shame marking the act of abandoning our tribal grounds.
We were never perfect.
Yet, the journey we make together is perfect on this earth who was once a star and made the same mistakes as humans.
We might make them again, she said.
Crucial to finding the way is this: there is no beginning or end.
You must make your own map.
A Map to the Next World by Joy Harjo
Founded Here! P.S. - Tal como este foi decicado a Desiray Kierra Chee, hoje dedico-o ao João.

02 abril 2011

Sin_King

Com os fracos resultados que escorrem como fino silício pela estreita ampulheta e a partida gorada, achego-me ao centro onde a progenitora se acerca, confessa e cedo me afasta; um encontro em descida irregular pelo renovado episcopal, o café na sacristia de sempre. após troca de cidade e trópico, inicia-se a pérfida perdição pelas margens do Munda. paragem no templo afundado que o homem emergiu, um redondo de indecisão e a fila interminável que entope a via leva-me a um mergulho pantanoso em arzila; em plena planície do ega, anobra e sebal aguçam o encanto até alfarelos. vislumbro o monte maior amuralhado do outro lado que percorro até ao cimo e cincundeio, um vai e volta ondulante à ei_reira, as sete pontes de maiorca, paços abandonados e serras sobrepostas. surge a doca da figueira, já noite e uma costa vazia e fresca pela brisa morna que arrefece a bucha na praia de buarcos. Só, aqui... por pouco tempo.

27 março 2011

Hiero_Drama

«Há milhares de anos o homem compreendeu que nada é mais terrível do que cultivar a idolatria porque o ídolo não passa de um pedaço de madeira. Se procurarmos o sagrado, decisão inteiramente pessoal, claro, nesse caso não devemos transigir: ou pertence a todos os momentos ou não existe. Não podemos assumir um sagrado que funciona ao domingo e dorme nos outros dias da semana. É absurdo pensar que o sagrado existe no alto da montanha e não existe no vale.
(...) Se o invisível não é obrigado a manifestar-se, no entanto, pode fazê-lo em qualquer sítio e a qualquer momento, por meio de qualquer pessoa, desde que as condições sejam as justas. Estou pois convencido que não serve de nada reproduzir rituais sagrados do passado que têm poucas hipóteses de nos levar ao invisível. A única coisa que pode ajudar-nos é o sentido do presente. Sentir que o momento presente está cercado de modo especialmente intenso e que as condições são favoráveis ao sphota, esse "relâmpago" que surge no momento do som certo, do gesto certo, do olhar certo, da troca certa. Neste caso, entre milhentas circunstâncias completamente inesperadas, o invisível pode surgir, através de uma forma, claro. A procura do sagrado é portanto uma atitude, uma pesquisa. O invisível pode manifestar-se nos objectos mais vulgares uma vez que a metamorfose, a alquimia, esteja presente. A garrafa de água de plástico (...) pode ser transformada e impregnada pela aparição do invisível, no caso de a pessoa atingida estar em estado de receptividade e repleta de talento.
O sagrado é uma transformação, em termos de qualidade, do que de início não é sagrado. O teatro passa pelas relações entre os homens que, obrigatoriamente já que pertencem ao mundo dos homens, não são sagrados. O invisível aparece atrás do visível que é a vida dos homens.»

Peter Brook - O Diabo é o aborrecimento (Conversas sobre Teatro 1993- Asa)


King Lear


Marat/Sade


Mahabharata

For_Give

A ideia de catástrofe que toda a semana assolou os espíritos foi inversamente proporcional à calma que me trouxe uma subida aos tectos a conservar da entrada monumental e às vistas da cúpula da bolsa invicta que dita o caos humanitário (nesta concepção a tornar-se ultra_passad@); uma longa conversa em pufs no mercado negro feito clube duro, de fissuras que se curam em terapia de palavras, restauram a porosidade original e permite a respiração de tudo o que foi erguido; belo banquete de mar à chuva e passeio na largura do areal nocturno a que se chega subindo o traçado marginal da costa_foz; afinal já não vou ao luso rencontro materno pois um sentimento de aglutinação e perdão força-nos a perma_nascer (saudades xana y patty, clau y bisnas, bemvindos Maria y Martim!)

A vida do homem dura em média oitenta anos. É contando com esta duração que cada um imagina e organiza a sua vida. O que acabo de dizer é uma coisa que toda a gente sabe, mas raramente nos damos conta que o número de anos que nos é atribuído não é um simples dado quantitativo, uma característica exterior (como o comprimento do nariz ou a cor dos olhos), mas faz parte da própria definição do homem. Alguém que pudesse viver, com toda a sua força, duas vezes mais tempo, portanto, digamos, cento e sessenta anos, não pertenceria à mesma espécie que nós. Já nada seria semelhante na sua vida, nem o amor, nem as ambições, nem os sentimentos, nem a nostalgia, nada. Se um emigrado, depois de vinte anos vividos no estrangeiro, regressasse ao país natal com cem anos de vida à sua frente, pouco experimentaria da emoção de um Grande Regresso, provavelmente para ele isso nada teria de um regresso, não passando de mais de uma das voltas do longo percurso da sua existência.
Porque a própria noção de pátria, no sentido nobre e sentimental da palavra, liga-se à relativa brevidade da nossa vida, que nos proporciona muito pouco tempo para que nos apeguemos a outro país, a outros países, a outras línguas.


A ignorância – Milan Kundera (2003 - 6ª ed.Asa Pequenos Prazeres)


Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre. Miserável consolo, que só os Suíços enriquece...

Stig Dagerman ~ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer (5ªed, Fenda 2004)

16 março 2011

Lethes_Gold


Big in Japan - Alphaville

Depois de mais uma inclinação do eixo provocada pelo sismo, agora o apocalipse nuclear; assisto da mesa redonda aos manifestos e desenvolvimentos (o governo que nos transporta à beira da cisão) até me fartar da indolência e mergulhar nesta sociedade pelo último festival de curtas- reencontro gente e permaneço só, divertindo-me com os temas de A a E e concerto destes tipos que já não cheiram tanto a mão morta. Pena só de não me ter levantado mais cedo pois as novas estradas que percorro no dia seguinte dão-me quase a foz e o regresso à partida: 308 pelos santos julião e cristóvão do freixo (e outros também ao alto), vou descendo o vale pressentindo castelos e romarias que me arrastam até à aparecida, sempre mudo; quando chego à terra dos artesãos das arrecadas, recuo violentamente sob o aguaceiro fechado de memórias para a ponte que atravesso querendo esquecer... uma nova varinha e a abandonada 307, ambas atravessando o território de deslumbramento que não se compadece das fronteiras, distâncias e combustíveis; subo até ao pai nascente para a vila dourada_coração do minho, última neste domingo, nesta paragem.


Personality crisis - Sonic Youth (New York Dolls's cover)

06 março 2011

Coulro_Phobia

Esta é graças ao Felizes, que m'os recordaram e a este período detestável - em abstinência!

Up behind the bus stop, in the toilets off the street,
there are traces of a killing on the floor beneath your feet.
Mixed in with the piss and beer are bloodstains on the floor,
from the boy who got his head kicked in a night or two before.

(Chorus)
Homophobia- the worst disease
You can't love who you want to love in times like these
Homophobia- the worst disease
Love how you want to love and love who you please

In the pubs, clubs and burger bars, breeding pens for pigs,
alcohol, testostorone and ignorance and fists.
Packs of hunting animals roam across the town.
They find an easy victim and they punch him to the ground.

(Chorus)

The siren of the ambulence, the dead pan of the cops.
Chalk to mark the outline where the boy first dropped.
Beware the holey trinity - church and state and law.
For every death the virus gets more deadly than before.

03 março 2011

Ständ_Chen


Cedo, tardes e noites depois, a vida está fria lá fora. sem o aconchego da alma e das palavras, com invólucros vazios a arder, saio para a visita de aconselhamento ao novo hamman, folheio as revistas da semana no pátio da agenda e ouvimos as dimensões possíveis para a caixilharia humana em futurologia de pintura e prova absoluta. o irmão está cá e a missa do sétimo dia da senhoria é hoje. acordo com uma crónica estilo pitta na cabeça e inspirado, limpo a água que escorreu da banheira e de mim pelos visores - celebro a centésima que recordo de folhas grossas e design giacomettista com um steiner fácil aqui e ali em rede, talvez um excerto da consoante muda no público, mas fico-me com estes três:

"Languages have great reserves of life. They can absorb masses of hysteria, illiteracy and cheapness [...] But there comes a breaking point. Use a language to conceive, organize, and justify Belsen; use it to make out specifications for gas ovens; use it to dehumanize man during twelve years of calculated bestiality. Something will happen to it. [...] Something will happen to the words. Something of the lies and sadism will settle in the marrow of the language. Imperceptibly at first, like the poisons of radiation sifting silently into the bone. But the cancer will begin, and the deep-set destruction. The language will no longer grow and freshen. It will no longer perform, quite as well as it used to, its two principal functions: the conveyance of humane order which we call law, and the communication of the quick of the human spirit which we call grace." (101) "Everything forgets. But not language. When it has been injected with falsehood, only the most drastic truth can cleanse it. Instead, the post-war history of the German language has been one of dissimulation and deliberate forgetting." (109)


Georg Steiner - Language and Silence in 1967 From a essay online Here


North Richmond Street being blind, was a quiet street except at the hour when the Christian Brothers' School set the boys free. An uninhabited house of two storeys stood at the blind end, detached from its neighbours in a square ground The other houses of the street, conscious of decent lives within them, gazed at one another with brown imperturbable faces.
The former tenant of our house, a priest, had died in the back drawing-room. Air, musty from having been long enclosed, hung in all the rooms, and the waste room behind the kitchen was littered with old useless papers. Among these I found a few paper-covered books, the pages of which were curled and damp: The Abbot, by Walter Scott, The Devout Communicant and The Memoirs of Vidocq. I liked the last best because its leaves were yellow. The wild garden behind the house contained a central apple-tree and a few straggling bushes under one of which I found the late tenant's rusty bicycle-pump. He had been a very charitable priest; in his will he had left all his money to institutions and the furniture of his house to his sister.


3rd short_story from Dubliners by James Joyce (1914): continue reading Araby on Project Gutenberg...

24 fevereiro 2011

Need You Now


Hush darling, don't you cry
Hush darling, don't you cry
Cause they're never gonna reach you, never gonna reach you

Hush darling, don't you cry
Hush darling, don't you cry
Cause they're never gonna reach you, never gonna reach you

In the morning I come down
In the morning I break down
But you're never gonna get away
Gonna get away

I know I'm running baby
but I need you now
Said I know we're going crazy
but I need you now
I need you now
To fight somehow

I know we're running baby
but I need you now
I know we're going crazy
but I need you now
I need you now
To fight somehow

There's a beauty in the waking night
There's a memory waking up
But it's never gonna reach you
never gonna reach you

In the morning I come down
In the morning I break down
But you're never gonna get away
Gonna get away

Hand touches your body now
Lips touch as you're falling down
Run for the last train
One of them will get you home

I know we're going crazy,
but I need you now
I know we're running baby
but I need you now
Need you now
To fight somehow

I know we're going crazy
but I need you now
I know we're running baby
but I need you now
I need you now
To fight somehow

But I need you now


Tonight

Tonight

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