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12 março 2011

Drive

From Automatic for the People to Collapse into Now! (original dance video)

16 junho 2010

Pro_Geria

Estamos em plena mutação...dissolve-se tudo numa triste, bela e pre_coce civilização.

06 junho 2010

Hiper_Dulia

A pé, em peregrinação pelo dia da senhora, acompanhado pela mensageira após seia plena de filosofia, investigamos os mistérios do caminho da mãe das mães - todas e mais algumas - atravessando todo o souto até ao centro, são vítor e dom pedro em permanente diálogo até ao velho e saímos da cidade pela nova cruz, num brando calvário.
Após pausa estimulante para hóstia e necessidades fisiológicas, chegamos aos barcos para caminhada de saúde em desmaio pela beleza natural do parque; pelas curvas em espinho seguimos, por entre a piquenicagem pós_descida e pela monumental escadaria até ao aterro nas alturas, percorremos a azulejaria da cripta com os dogmas e feitorias como ícones de uma história que mistura estado e religião nas suas entranhas. É na ascenção que decido o meu anátema, circundando o altar da virgem e, com a mártir, subir as centenas de degraus até atingir a vista do zimbório.
Após décadas de atraso -e nem o marianismo patriarcal conseguiu redimir- quer o jornalista da época, quer o sacerdote actual confessam o sucedido no primeiro santuário por afluência. Assim, assumo a minha essência, enquanto assisto à fé e atropelamento africanos do mundial, à marcha contra o genocídio da fome, ao pântano negro que penetra na américa, à efevercência belicosa na costa fenícia... (Ah, e o marcelo em paris com o arco do triunfo ao fundo, após conferência "agradável" na casa de portugal, a responder a perguntas dos espectadores, a assistir ao comentário de mourinho sobre o seu "modesto" comentário e a fazer apostas com o apresentador).

O talho de baixo do prédio tem agora um letreiro azul com um dente gigante e dois casais de jovens "curtem" sofregamente em frente à porta.

02 abril 2010

Ecce_Homo

A partir de um folheto entregue nos cortejos, descubro a essência humana: no dia anterior atravessei a cidade para buscar os primeiros óculos de sol graduados que tenho; salto para as montras com plantas decorativas de plástico e entro noutra loja, percorrendo novos objectos (o letal consumismo avança...) – uma jarra verde, dois castiçais altos, feitos à mão e velas, tudo com desconto – e ainda dois ovos de páscoa com felizes efeitos para as pessoas aurícula_ventrículares sempre ao meu lado que, após reuniões discutíveis em Barcelos e Braga digitais, impulsionam a minha veia existencialista; pão-de-ló e chá verde com jasmim para corte de cabelo, boleia pós-atendimento fortuito para buscar carro aspirado e limpo, amêndoas da auxiliar para pagar promessa informática, sessão breve, proveitosa e pródiga das revoluções de abril; imposto de selo automóvel pago enquanto as epístolas antigas apresentam a semana santa, circundando o mcdonalds da avenida central, perseguidas pelo jumento albardado de santa em fuga e das altas autoridades desta sociedade presa entre tradições renovadas – falamos do início dos percursos profissionais e adormeço no sofá; desperto para ir ao mercado enfeitar a casa com frésias, líros e túlipas em tons purpúreos da quadra, por quanto avisto o sol e os montes ao fundo, entre as nuvens; volto ao posto para arrumar tarefas e consolar o ancião que me explica o seu futuro com as origens ancestrais dos costumes, descubro o livro epitáfico e almoçamos tarte de bacalhau entre cadela e gata que devolvem a auréola ao dia: aos raios que se impõem, saímos para café e prenda esquecida no museu e água tónica com panachet à foz do cávado no lounge de esposende (cujo brasão me traz aqui pela padroeira nos céus), aproveitando para exercitar todos os músculos após a piscina, a ver as marismas... regresso imediato e descarga na descida da boavista, entrada no viana para a recepção do(s) homem(s) no seu delírio futebolístico, poesia di_vino na coluna, o tribunal do trabalho em frente, ida a casa para guarda-chuvas e o auge do fervor religioso (para alguns): as gentes que não respeitam e não param os comentários estúpidos perante os figurantes e os estandartes, na tentativa de escárnio perante tudo_nós_eu, nesta cerca de muros, de cabeças, de pedras (até o vizinho subiu cá acima para reclamar o arrastar das correntes!). Barrocos são os tempos...


Um filme de Jerry Tartaglia de 1989 - whether the taboo is against gay sex or against seeing gay sex…

07 abril 2009

Shade_(Fake)Shape II

...Dentro deste contexto, defendi que o papel unificador da consciência é o de dar coerência à nossa experiência. Ora bem, tal congruência é bastante arbitrária. Consegue-se formulandohipóteses e contando histórias que encaixem umas nas outras, que sejam congruentes entre si,sem que tenha muito sentido perguntarmo-nos se cada uma dessas narrações em particular é “verdadeira” ou o reflexo fiel das experiências, pois é o conjunto de todas elas que resulta como algo útl ou aceitável. A consciência elabora interpretações,isto é, unidades superiores que dão sentido aos átomos da experiência. Para isso conta histórias, mas depois de terem ocorrido os factos e das experiências terem tido lugar, ou depois de termos tomado as decisões. [...] A consciência está todo o tempo encaixando coisas dentro das narrações verbais e não verbais. [...] Em resumo, a consciência equipara-se à montagem final de um filme, graças à qual adquirem coerência as sequências que foram anteriormente filmadas.
Desempenhando este papel, o eu apresenta-se como um grande fabulador. Se a memória entrelaça materiais de diversas origens, mudando as suas narrações uma e outra vez, o mesmo faz a consciência em cada breve momento, entrelaçando percepções actuais com outros estados mentais. Por isso, o presente e opassado que aparecem à nossa consciência são diferentes versões ou “esboços múltiplos” de interpretações das nossas sensações e emoções. Não há uma versão que seja autêntica, a original, deque as demais sejam falsificações.
Mas, se não há um núcleo de identidade psíquica, se esta é modular e, para além disso, mutável e pouco fiável, haverá pelo menos uma hierarquia dentro destes módulos, um processador central que controle as execuções de todos os subordinados e que seja o nosso referente quando falamos de nós mesmos?



Alberto Carreras, Ciências Cognitivas e/in Identidade Pessoal – Caminhos e Perspectivas pela Quarteto (2004)
Entrelaçando luto, insónia e um gripe pneumónica...

27 março 2009

Educ'A(r)te_Ap(r)en'Dice IV

Libertar da sujeição o desejo de saber

A exploração violenta da natureza substituiu o desejo pela sujeição; espalhou por toda a parte a maldição do trabalho manual e intelectual e reduziu a uma actividade marginal a verdadeira riqueza do homem: a capacidade de se recriar, recriando o mundo.
Ao produzirem uma economia que os economiza, a ponto de fazer deles a sombra de si mesmos, os homens obstruíram a sua própria evolução. É por isso que a humanidade tem ainda de ser inventada.
A escola traz consigo o sinal palpável duma fractura no projecto humano. Apreeende-se nela, cada vez mais, em que condições e em que altura a criatividade da criança é destruída sob as marteladas do trabalho. A velha litania familiar que reza “Trabalha primeiro, logo te divertes” sempre exprimiu a absurdez duma sociedade que prescrevia a renúncia duma vida para melhor se consagrar a um labor que a esgotava, deixando aos prazeres apenas as cores da morte.
É necessária toda a parvoíce dos pedagogos especializados para alguém se espantar pelo facto de tantos esforços e canseiras infligidos aos alunos redundarem em tão medíocres resultados. Que esperar quando a mais íntima vontade falta, ou já nem existe?
Tendo Charles Fourier observado, durante uma insurreição, com que cuidado e ardor os amotinados arrancavam a calçada duma rua, erguendo em poucas horas uma barricada, comentava ele que teriam sido necessários três dias de trabalho a um rancho de cantoneiros às ordens dum patrão para fazer o mesmo. Os assalariados ter-se-iam limitado a dedicar ao caso o interesse da féria, sendo em contrapartida a paixão da liberdade aquilo que animava os insurrectos.
Só o prazer do indivíduo ser ele mesmo e de ser para si mesmo poderá dar ao saber esta atracção passional, que explica o esforço sem a recorrencia à sujeição.
Tornar-se uma pessoa aquilo que é exige a mais intransigente das resoluções, nisso se impondo constância e obstinação. Se não quisermos resignar-nos a consumir conhecimentos que nos hão-de reduzir ao estado miserável de consumidores, não podemos ignorar, para sair deste atoleiro em que se enterra a sociedade do passado, que temos de tomar a iniciativa dum impulso de sentido contrário. Pois quê! Então vocês estão dispostos a combater e esmagar os outros para arranjarem emprego, e hão-de hesitar em investir essa energia toda numa vida que será todo o emprego que fizerem das vossas próprias pessoas?
Não queremos ser os melhores, queremos que nos caiba o melhor da vida, segundo o princípio da inacessível perfeição que revoga a insatisfação em nome do insaciável.

Raoul Vaneigem, Aviso aos alunos do ensino básico e secundário (1995) pela Antígona

28 janeiro 2009

Shade_(Fake)Shape I

"Desempenhando a função de esconder a evidência, a opinião pública tem o mesmo papel que a tradição nas sociedades antigas: oferecer algo a que se possa aderir e ser salvo de recriminação. Mas enquanto a tradição incluía uma semântica de segredo que era passada de geração em geração, a função de encobrir a realidade que tem a opinião pública nunca foi referida. Ela própria se torna "segredo". Isto é compensado pela rápida mudança de temas e a uma abertura ao que é novo.
Pode-se clarificar esta orientação com a ajuda da metáfora do espelho. Neste caso já não temos um espelho de virtudes no qual o príncipe pode reconhecer o seu melhor ego mas a possibilidade de observar como seu próprio observador e outros são representados pela opinião pública. Em nenhum acontecimento nos vemos ao espelho mas apenas a expressão que compomos para o espelho. Mas não é tudo. Para além disso, nas nossas costas vemos outros que também actuam em frente ao espelho: outras pessoas, grupos, partidos políticos e versões do mesmo tema.
O que quer que vejamos é só um perfil que é determinado pela nossa própria posição e movimento. O efeito assenta completamente na intransparência do espelho., isto é, numa separação total de tudo o que realmente ocorre na mente das pessoas reais ao tempo em que se olha para o espelho. A diferenciação do complexo meio_forma da opinião pública e a dissimulação da verdadeira complexidade de uma grande quantidade de processos conscientes torna possível à política orientar-se de acordo com a opinião pública.
Por um lado, isto significa que a política só pode vislumbrar-se no espelho da opinião pública, fixada que está no contexto artificialmente escolhido das suas próprias possibilidades de movimento. Por outro lado, contudo, o espelho também reflete de volta para o observador menos e ao mesmo tempo mais que somente ele próprio. Ele também vê os seus concorrentes, intrigas e possibilidades que só são atractivas para os outros e não para ele. Assim, o espelho da opinião pública, tal como o sistema dos preços de mercado, torna possível uma observação dos observadores. Como sistema social, o sistema político, portanto, usa a opinião pública para se tornar capaz de se observar e desenvolver estruturas de expectativas correspondentes. A opinião pública não serve para estabelecer contactos externos. Serve a clausura auto-referencial do sistema político, o círculo fechado da política. Mas a clausura auto-referente é conseguida com a ajuda de uma instituição que permite ao sistema distinguir auto-referência e referência a outro, isto é, a política e a opinião pública, na realização das suas próprias operações e com ela construir uma representação dos limites das suas próprias possibilidades de acção.

[...]

Niklas Luhmann in A Improbabilidade da Comunicação. Pag. 85-87 Vega (4a Ed.) Colecção Passagens, 2006.


Apenas para dar andamento. Desabafos sobre o que faço, os que fazem, o que fazem... onde estou.

14 janeiro 2009

The End of the End of Times II

"Vistas à escala dos milénios, as paixões humanas confundem-se. O tempo não acrescenta nem retira nada aos amores nem aos ódios sentidos pelos homens, aos seus compromissos, às suas lutas e às suas esperanças: ontem e hoje serão sempre os mesmos. Suprimir ao acaso dez ou vinte séculos de história não afectaria de maneira sensível o nosso conhecimento da natureza humana. A única perda irreparável seria a das obras de arte que esses séculos teriam visto nascer. Porque os homens não diferem, nem sequer existem, senão através das suas obras. Como a estátua de madeira que pariu uma árvore, são unicamente elas que atestam a evidência de que, no decorrer dos tempos, entre os homens, alguma coisa realmente se passou."



Final de "Olhar, Ouvir, Ler" de Claude Lévi-Strauss (1993) no alto do seu centésimo aniversário, em 95 pela Asa na colecção Sinais.

Em inspiração sequenciada d'Os Livros Ardem Mal... no dia perfeito do Sócrates.
E este é o meu centésimo post e desta vez estou a manter-me por aqui...

22 novembro 2008

Educ'A(r)te_Ap(r)en'Dice III

Ocu_Passion

"Em primeiro lugar, todos os interesses se desenvolvem a partir de instintos ou hábitos, os quais, por sua vez se baseiam num instinto original. Não se pode concluir que todos os instintos tenham o mesmo valor ou que não herdemos muitos instintos que necessitam mais de transformação do que de satisfação, de forma a terem alguma utilidade na vida. Mas os instintos que encontram uma saída e expressão conscientes na ocupação estão destinados a ser de um tipo particulamente fundamental e permanente. As actividades da vida estão por necessidade orientadas no sentido de colocar os materiais e forças da natureza sob o controlo dos nossos objectivos; a torná-los tributários com os fins da vida. Os homens tiveram de trabalhar para viver. No seu trabalho e através dele controlaram a natureza, protegeram e enriqueceram as condições de vida, despertaram para o sentido dos seus próprios poderes: foram levados a inventar, planear e alegrar-se perante a aquisição de competências. De uma maneira muito simples, pode dizer-se que todas as ocupações podem ser entendidas como instâncias das relações fundamentais do homem com o mundo em que vive com o objectivo de arranjar comida para manter a vida; assegurar vestuário e abrigos para se proteger e ornamentar-se e, por fim, encontrar uma casa permanente na qual todos os interesses espirituais e mais elevados se possam centralizar. É um absurdo pensar-se que interesses que possuem esta história subjacente possam ser menosprezados."

A Escola e a Sociedade – John Dewey 1900 (pela Relógio d’Água em Fevereiro de 2002)

Educ'A(r)te_Ap(r)en'Dice II

Funci_Oral

"A mudança no ensino infantil, nas sociedades mais complexas, é dupla. Antes de mais, há na cultura muito mais conhecimentos e aptidões do que qualquer pessoa tem individualmente. E assim se desenvolve cada vez mais uma técnica económica de ensinar os jovens, profundamente baseada no dizer fora do contexto e não no mostrar em contexto. Nas sociedades letradas, a prática institucionaliza-se na escola ou no professor. Ambas promovem esta forma necessariamente abstrata de ensinar os jovens. O resultado de "ensinar a cultura" pode, na pior das hipóteses, conduzir ao absurdo ritual e rotineiro que levou uma geração de críticos ao desespero. Isto porque, na escola deslocada, aquilo que se transmite tem, muitas vezes, pouco a ver com a vida tal como a vivemos na sociedade, excepto na medida em que as exigências da escola reflectem indirectamente as exigências da vida na sociedade técnica. Mas estas exigências indirectamente impostas podem ser a característica mais importante da escola deslocada. A escola é um desvio acentuado da prática indígena. Como vimos (anteriormente), tira a aprendizagem do contexto da acção imediata simplesmente ao colocá-la numa escola. Esta separação faz com que a aprendizagem se torne, em si própria, um acto, libertada dos fins imediatos da acção, preparando aquele que aprende para a cadeia de cálculo distante da repercussão necessária à formulação de ideias complexas. Ao mesmo tempo, a escola (se bem sucedida) liberta a criança da rotina das actividades quotidianas. Se a escola conseguir evitar que se estabeleça nela própria uma rotina, pode ser um dos grandes agentes da promoção da reflexão. Além disso, na escola, tem de se "acompanhar a lição", o que implica ter de se aprender a acompanhar quer a abstracção do discurso escrito - abstracto, no sentido em que está divorciado da situação concreta com que o discurso poderia estar originalmente relacionado - quer a abstracção da linguagem oral, mas afastada do contexto de uma acção em curso. Trata-se de duas utilizações profundamente abstratas da linguagem."

Para uma Teoria da Educação – Jerome Bruner 1966 (pela Relógio d’Água em Agosto de 1999)

08 outubro 2008

Educ’A(r)te_Ap(r)en’Dice I

A Regra de Bruner

“Na altura do Sputnik, houve um grande exame público à adequação do nosso sistema de ensino relativamente à tarefa que se nos deparava. De facto, muitas das reformas do novo currículo tinham começado antes – motivadas por uma percepção do fosso assustador entre o conhecimento especializado da nossa tecnologia e o conhecimento público. Creio que nunca se viverá um período de tão descuidada ou ritualista disposição para com o ensino público – mas, na verdade, o ensino público como conceito operatório ainda nem tem um século de vida!
Pode bem dar-se o caso de estarmos a entrar num período de maturidade tecnológica, em que a educação exigirá uma redefinição constante, e de esse período vindouro implicar um ritmo de mudança tão rápido na tecnologia específica que as aptidões restritas se tornarão obsoletas pouco tempo depois da sua aquisição. Efectivamente, talvez uma das propriedades definidoras de uma tecnologia muito amadurecida seja a existência de uma animada probabilidade de mudança tecnológica profunda no espaço de uma única geração – tal como a nossa assistiu a várias dessas importantes mudanças.
Juntamente com uns jovens alunos com quem estive a trabalhar no Verão de 1964, num currículo de estudos sociais, entretive-me a reformular a Regra de Bruner – a relação entre as mudanças decisivas e a ordem de magnitude em anos decorridos. Utilizei-a como extensão da lei quadrática para o ângulo retiniano – o tamanho da imagem retiniana é o inverso do quadrado da distância entre o objecto e o olho. Portanto, quanto mais longínquo um período de tempo, maior a sua duração para ser apreendido! Assim:

5 x 10 9 5 000 000 000 Nascimento da Terra
5 x 10 8 500 000 000 Vertebrados
5 x 10 7 50 000 000 Mamíferos
5 x 10 6 5 000 000 Primatas
5 x 10 5 500 000 Homem Actual
5 x 10 4 50 000 Grandes Migrações Glaciais
5 x 10 3 5 000 História Documentada
5 x 10 2 500 Imprensa
5 x 10 1 50 Rádio / Ensino de Massas
5 x 10 0 5 Inteligência Artificial



O que aprendi com os meus alunos foi a conclusão de que as coisas estavam a acontecer em catadupas. A vida começou provavelmente à volta de 2,5 x 109, de modo que metade da história da Terra decorreu sem vida. Cerca de 99,999% da vida da Terra não teve a presença humana e, daí para a frente, o registo é impressionante e assustador. De facto, poderia parecer que a principal característica das ferramentas e técnicas é gerarem outras ainda mais avançadas, a uma velocidade sempre crescente. E à medida que a tecnologia assim amadurece, a educação adquire, pela sua própria natureza, um papel cada vez maior, ao fornecer as aptidões necessárias para gerir e controlar o empreendimento em expansão.
A primeira resposta dos sistemas educativos, sob uma tal aceleração, é produzir técnicos, engenheiros e cientistas de acordo com as necessidades, mas é duvidoso que essa prioridade produza o que é preciso para gerir o empreendimento. É que nenhuma ciência ou tecnologia específica fornece uma metalinguagem quanto ao que pensar acerca de uma sociedade, da sua ciência e das mudanças constantes que estas sofrem com a inovação. Poderia um engenheiro mecânico ter previsto a morte da América das pequenas cidades com o advento do automóvel? Estava tão absorvido pela tarefa de fazer automóveis cada vez melhores que nunca lhe ocorreria considerar a cidade, a vereda, o lazer ou a lealdade local. De certa forma, quando se trata de gerir a mudança, são necessárias as pessoas com a percepção da continuidade e da respectiva oportunidade. Em breve voltaremos a este assunto.”

Para uma Teoria da Educação – Jerome Bruner 1966 (pela Relógio d’Água em Agosto de 1999)
A propósito da vertigem de Maurice e dos imperadores (Pinguim & TongZhi).

04 outubro 2008

The End of the End of Times I



“De facto, se o investimento historicista constituía prática adequada a uma concepção acumulativa, evolutiva e continuística do tempo, hoje a situação parece ser diferente. As mudanças sociais que ocorreram no mundo e a contestação feita tanto às filosofias da história como às suas ideias norteadoras (perfectibilidade, evolução, continuísmo, progresso, previsibilidade), instalaram um sentimento de descontinuidade, pluralidade, variação e não sentido em relação ao tempo (psicológico e histórico). E a diminuição da sua vivência como presente real (complexo e tensional) tem provocado, em simultâneo, a “morte” pretensão de se domesticar e programar o futuro, diluída na euforia do viver em tempo real. Com isso caiu-se num culto do presente, como se este fosse uma incessante eternidade, sem abertura para o passado e para o porvir, mnemotropismo que exprime a perda de referências e o decréscimo da adesão dos indivíduos a identidades holísticas externas. Atitude que parece ter como uma das suas causas o esgotamento das “filiações escatológicas”, ou melhor, das grandes memórias e narrativas organizadoras e reprodutoras do elo social (família, igreja, partido, sindicato, nação, humanidade), e conferidoras de uma direcção para a história. Daí que a ideia de futuro (como a de futuro do passado) tenha enfraquecido., como se não mais existisse qualquer distância entre o passado e o presente, ou melhor, entre o campo de experiência e o horizonte das expectativas. O que se pergunta, porém, é se uma dada situação histórica, que tende a banalizar a ideia de Novo, confundindo-a com o efémero e o vazio, pode estancar de vez, a índole desejante do modo de ser do homem, insatisfação que o incita à criação do que ainda não é. Ora, como salienta Santo Agostinho, o homem é “bestia cupidissima rerum novarum, ‘animal avidíssimo de coisas novas’, tanto no sentido do ‘mais’, como no sentido do ‘de outro modo’”.


Caminhos do Fim da História" - Fernando Catroga 2003 (com citações de Paul Ricoeur, François Hartog, Jérome Baschet e Pedro Laín Entralgo) pela Quarteto Editora

22 setembro 2008

Under_Standing

"A linguagem foi concedida ao homem para fazer dela um uso surrealista. Na medida em que lhe é indispensável fazer-se compreender, ele consegue, bem ou mal, exprimir-se e assim assegurar o desempenho de algumas funções, das mais banais. Falar, escrever uma carta não lhe oferecem nenhuma dificuldade real, desde que, fazendo-o, ele não se proponha a um objectivo acima da média, isto é, desde que se limite a entreter-se (pelo prazer de se entreter) com alguém. Ele não fica aflito com as palavras que virão, nem com a frase que virá, terminada a sua. Ele será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples. À falta de tiques contraídos no convívio com os outros, ele pode opinar espontaneamente sobre alguns poucos assuntos: para isso não lhe é preciso antes "contar até dez" nem ter fórmulas preparadas. Quem poderá tê-lo convencido de que esta faculdade de "falar logo à primeira" só serve para desserví-lo, quando ele se propõe estabelecer ligações mais delicadas? Ele não deve se recusar a falar ou escrever de improviso sobre nada. Ouvir-se, ler-se, não tem outro efeito senão o de suspender o oculto, o admirável auxílio. Não conto para me compreender (chega! sempre me compreenderei). Se esta ou aquela das minhas frases me traz na hora uma leve decepção, confio na frase seguinte para redimí-la, cuido para não recomeçá-la ou aperfeiçoá-la. A mínima perda de ímpeto ser-me-ia fatal. As palavras, os grupos de palavras que se sucedem exercem entre si a maior solidariedade. Não me compete favorecer estas em detrimento daquelas. Quem deve intervir é uma miraculosa compensação: e ela intervém.
Não só esta linguagem sem reservas que procuro tornar sempre válida, que me parece adaptar-se a todas as circunstâncias da vida, não só esta linguagem não me desfalca de nenhum de meus recursos, mas ainda me confere uma extraordinária lucidez precisamente no domínio onde eu menos dela esperava. Posso até afirmar que ela me instrui, e como tal já me aconteceu utilizar surrealmente palavras cujo sentido eu tinha esquecido. Pude verificar depois que o uso por mim feito correspondia exactamente à sua definição. Isto poderia fazer crer que não se "aprende", que sempre se "reaprende". Há expressões felizes com as quais me familiarizei. E não me refiro à consciência poética dos objectos que só pude adquirir pelo contacto espiritual mil vezes repetido.
É ainda ao diálogo que as formas da linguagem se adaptam melhor. Aí, dois pensamentos confrontam-se; enquanto um ser se revela, o outro ocupa-se dele, mas como? Supor que o incorpora seria admitir que, por algum tempo lhe é possível viver inteiramente deste outro pensamento, coisa muito improvável. De facto, a atenção que lhe é dada é totalmente exterior; só tem ensejo de aprovar ou de desaprovar, geralmente desaprovar, com toda a deferência de que o homem é capaz. Este modo de linguagem não permite, aliás, chegar ao fundo de qualquer assunto. A minha atenção, vítima de uma solicitação que não pode decentemente repelir, trata o pensamento alheio como inimigo; na conversação usual ela "censura-o " quase sempre pelas palavras, pelas figuras de que se serve; ela põe-me em condições de tirar partido delas, desnaturando-as. Isto é tão verdade que em certos estados mentais patológicos, onde os distúrbios sensoriais afectam toda a atenção do doente, este limita-se, pois continua a responder às perguntas, a pegar na última palavra pronunciada junto a ele, ou no último segmento de frase (surrealista) que restou no seu espírito:


"Que idade tens? " – Tens (Ecolalia)
"Como te chamas?" – Quarenta e cinco casas (Síndrome de Ganser, ou das respostas absurdas)


Não há conversa onde não entre algum restício dessa desordem. O esforço de sociabilidade aí reinante e a nossa grande prática é que nos disfarçam esse facto, por pouco tempo. Também é a grande fraqueza do livro entrar sempre em conflito com os seus melhores leitores, quero dizer, com os mais exigentes. No pequeníssimo diálogo que acima improvisei, entre o médico e o alienado, é este, aliás, quem leva vantagem: pois as suas respostas impõem-no perante o médico examinador – e não é o mais forte? Talvez. Ele tem liberdade de não se importar com o seu nome nem com a sua idade.
O surrealismo poético, ao qual consagro este estado, dedicou-se até agora a restabelecer o diálogo na sua verdade absoluta, isentando os dois interlocutores das obrigações de cortesia. Cada um deles simplesmente prossegue no seu solilóquio, sem procurar tirar daí um prazer dialéctico particular nem se impor ao seu vizinho, de forma alguma. Os conceitos emitidos na conversa não visam, como geralmente, o desenvolvimento de uma tese, tão insignificante quanto se queira, eles são tão desafectados quanto possível. Quanto à resposta que reclamam, ela é, em princípio, totalmente indiferente ao amor-próprio de quem falou. As palavras, as imagens não se oferecem senão como trampolim ao espírito de quem escuta."

Manifesto do Surrealismo - 1924, André Breton (um pouco abrasileirado, inspirado no Kaos desta vida...)

18 setembro 2008

Naïve

“Chamaram outro médico; este, em vez de auxiliar a natureza e de a deixar obrar por si naquela moçaem que todos os órgãos clamavam por vida, não pensou senão em fazer o contrário do que o confrade fizera. Em dois dias, a doença tornou-se mortal. O cérebro, que se julga ser a sede do entendimento, foi tão violentamente atacado como o coração, o qual é, dizem, a sede das paixões.
Que mecânica incompreensível submeteu os órgãos ao sentimento e ao pensamento? Como é que uma simples ideia dolorosa é capaz de perturbar a circulação do sangue? E como é que o sangue, por sua vez, conduz a todas estas perturbações ao entendimento humano? Que fluido desconhecido é esse, cuja existência é certa, que mais rápido, mais activo do que a luz voa em menos tempo do que um pestanejar de olhos por todos os canais da vida, produz as sensações, a memória, a tristeza ou a alegria, a razão ou a vertigem, lembra com horror o que se quer esquecer e tanto faz de um animal pensante um objecto de admiração como um motivo de piedade e de lágrimas?
[...]
Quando o momento fatal chegou, todos os presentes soltaram lágrimas e gritos. O Ingénuo perdeu os sentidos. As almas fortes quando são sensíveis têm sentimentos bem mais impetuosos do que as outras pessoas. O velho Gordon conhecia-o suficientemente para recear que, quando ele voltasse a si, atentasse contra a própria vida. Esconderam todas as armas; o desventurado mancebo apercebeu-se disso; aos seus parentes e a Gordon, sem chorar, sem gemer, sem se comover, perguntou:
- Estais certo de que possa haver na Terra alguém com direito de me impedir de acabar comigo?
Gordon teve o cuidado para não fazer estendal desses lugares-comuns tão fastidiosos com que se costuma querer demonstrar que ninguém tem o direito de usar da sua liberdade para deixar de viver quando vive horrivelmente, que ninguém deve sair da sua casa quando já não pode continuar a viver nela, que o homem está na Terra como um soldado no seu posto; como se ao ser dos seres pudesse importar que um agregado de algumas partículas de matéria esteja aqui ou ali; razões impotentes, que o desespero tenaz e reflectido se não digna ouvir e às quais Catão respondeu com uma punhalada.
O triste e terrível silêncio do Ingénuo, os seus olhos sombrios, os seus lábios trémulos, os estremecimentos do seu coração provocavam na alma de quantos o contemplavam esse misto de compaixão e de pavor que cativa todas as potências da alma, que cala todos os discursos e que se não traduz senão por palavras entrecortadas.”



O Ingénuo – Voltaire 1767 (acabadinho de ler nas edições quasi, neste verão do DN)

16 setembro 2008

Pessoa

És melhor do que tu! Não digas nada: Sê!

08 setembro 2008

As Linhas de Oz III

Este é (talvez) o último ex_certo que aqui ponho desta “his_tórinha”, antes que me condenem a pagar direitos de autor. Ilustra credos que correm por mim, também (um mês nesta urbe verde).

Diz_Cordante (ou Papa: don’t Preach!)

“Talvez não seja justo perguntar que direito ou qualificação concretos tem um romancista ou um contador de histórias para exprimir opiniões. Haverá algo, porventura, que os romancistas, contadores de histórias e escritores conheçam melhor do que os taxistas, os programadores informáticos, ou até mesmo os políticos? Bem, a resposta mais simples seria a de que se eu sou de um país em que toda a gente discute sobre tudo; porque não poderei eu fazê-lo também? Se sou de um país em que cada taxista sabe exactamente como governar um país e o mundo; porque não poderei eu sabê-lo também? Poderia dizer-se, sem tornar isto ao pé da letra, que Israel não é nem um país nem uma nação. É uma feroz e vociferante colecção de discussões, um eterno seminário na via pública. Toda a gente discute, toda a gente sabe mais do que o seu vizinho. Existe um impulso anárquico, não só em Israel, mas julgo que também na herança cultural judaica. Por alguma razão,os judeus nunca tiveram Papa, nem poderiam ter. Se alguém – homem ou mulher – se autoproclamasse Papa dos Judeus, todos se aproximariam dele e lhe dariam uma palmadinha nas costas, dizendo: «Escuta, Papa, não me conheces, nem eu a ti. Mas o meu avô e o teu tio costumavam tratar de negócios juntos, lá em Minsk ou em Casablanca. De maneira que fica calado só durante cinco minutos e deixa-me explicar-te, de uma vez por todas, o que esse Deus pretende realmente de nós.»



Por outro lado, é algo que está muito arreigado nos genes da cultura judaica. Desde o princípio, os Judeus sempre tiveram o hábito de discordar entre si. Não é por acaso que ninguém consegue pôr dois de nós a concordar sobre algo. Para dizer a verdade, é difícil encontrar um judeu – homem ou mulher – que esteja de acordo consigo mesmo. Porque todos têm a alma e a mente dividida sobre o que quer que seja: todos são dostoievskianos e tolstoianos, ou vice-versa. Isto remonta aos dias em que os judeus ilustres costumavam desafiar o próprio Deus muito abertamente. E em certas ocasiões chegaram a demandá-Lo para que comparecesse diante do tribunal de justiça. Se nos recordarmos de Sodoma, o santo patriarca Abraão, pai dos Judeus e dos Árabes (ironias!), procura salvar a pecadora cidade da ira de Deus, que a pretende destruir. E regateia com Ele como um astuto vendedor de carros em segunda mão. Cinquenta homens justos, quarenta homens justos, trinta, vinte, talvez dez. Quando perde a discussão (e ninguém ganha discussões com Deus), volta o olhar para o alto e pronuncia a ousadíssima sentença; Hashofet kol ha’aretz lo ya’aseh mishpat? «Não faria justiça o Juiz de toda a Terra?» Isto é blasfemo, é ousado, implica dizer ao próprio Deus: pode ser que sejas o líder, mas não estás acima da lei. Pode ser que sejas o legislador, mas não estás acima da lei. Pode ser que sejas a fonte da autoridade, mas terás de te justificar diante de um tribunal supremo de justiça. A justiça está acima de ti... Uma teoria dificilmente concebível noutras religiões.”

In "How to Cure a Fanatic" Amos Oz, 2004

01 setembro 2008

Human_Ismos

«Interrogações abrem dúvidas no unanimismo à volta do humanismo. Uma atenção mais aguda descobre um curioso fenómeno: quando a função do discurso humanista se exerce para resolver problemas e fechar discussões em que se estava a esquecer o homem, ninguém pergunta mais nada, mais nenhuma questão se levanta, como se o apelo ao homem acabasse com todas as dificuldades. Quer dizer, como se o conhecimento que se tem do homem reduzisse a zero a ignorância que fez nascer o problema. Ora, é do homem que nós não conhecemos quase nada. É, no fundo da nossa ignorância, quanto ao ser humano, que geralmente nasce o problema. Que sabemos nós do seu psiquismo, do seu corpo, das relações que se atam entre o corpo e a psique; que sabemos nós dos fenómenos sociais, da causalidade do crime, da guerra, do mal? (Lembremo-nos do tom de desespero da carta de Einstein a Freud sobre o mal-estar da civilização...)

Em resumo, o apelo à tomada de consciência do valor central do homem, em vez de fechar os problemas com falsas soluções, deve abrir mil outros debates: que homem queremos, quando (com as novas tecnologias, com a engenharia genética) se deparam futuros alternativos? E estes são ainda puras simulações grosseiras.. O que é bom e mau para o homem? E se o descentramento do homem no universo representasse um bem? Não foi Lévi-Strauss que afirmou que uma das desgraças maiores – do ponto de vista de uma ecologia do espírito – que as sociedades não primitivas trouxeram ao homem foi o de o situar no centro do universo? E de, assim, desvalorizar a natureza e os outros seres vivos, arrancando-lhes o homem para o colocar nun lugar de eleição? Uma boa crítica descentralizadora do discurso humanista não traria afinal benefícios ao homem?

Em Portugal, o discurso humanista ajuda a não pensar. Panaceia universal para todos os males, vive do círculo que acabámos de descrever. O apelo à acção para o bem do homem e da humanidade supõe aquilo mesmo que queremos saber: o que é o homem? Que homem poderemos forjar no futuro? O que é “bom” para o homem e para a mulher? Como o conhecimento da natureza humana, e do que para ela é bom e mau, nos escapa, mas está pressuposto nas ideias humanistas, o discurso que as exprime é vazio. E o apelo ao “Homem”, excepto em casos_limite evidentes (fome, devastações, massacres, etc. – e nestes casos não é sequer necessário recorrer ao “Homem”), revela-se ineficaz e retórico. Quando já não lhes convém, quando deixa de lhes servir de álibi, forças poderosas varrem de uma penada o discurso humanista.»

José Gil (2005) Portugal, O medo de existir pela Relógio d’Água

20 agosto 2008

En_Saio

"Conhece-os tu próprio, não presumas perguntar a Deus,

O verdadeiro estudo da humanidade é o homem.

Colocado neste istmo de estado médio,

Um ser obscuramente sábio, e grosseiramente grandioso:

Com demasiado conhecimento para o lado céptico,

Com demasiadas fraquezas para o orgulho do estóico,

Ele pende entre a dúvida de agir, ou descansar;

A dúvida de se considerar um deus, ou um monstro;

A dúvida se deve preferir a sua mente ou o seu corpo;

Nascido apenas para morrer, e raciocinando apenas para errar;

A sua razão, semelhante à ignorância,

Quer pense muito pouco ou demasiado."



Alexander Pope in Ensaio sobre o Homem



"Por vezes sinto que estamos destinados a nunca nos compreendermos a nós próprios, porque parte da nossa natureza consiste em transformar cada pergunta numa expressão da nossa própria natureza: ambiciosa, ilógica, manipuladora e religiosa. «Nunca uma tentativa literária foi mais desastrosa do que o meu tratado sobre a natureza humana. Caiu morta à nascença no prelo», disse David Hume.
Mas depois lembro-me de quanto progredimos desde Hume e de quão mais perto estamos do objectivo de uma compreensão completa da natureza humana do que alguma vez já estivémos. Nunca atingiremos esse objectivo completamente, e talvez seja preferível que nunca o atinjamos.Mas enquanto pudermos continuar a perguntar «porquê?» temos um objectivo nobre."

Matt Ridley A Rainha de Copas - O sexo e a evolução da natureza humana. Original em 1993, pela gradiva em 2004.

18 agosto 2008

Tempo_Consciência Pessoal

"A pessoa dispõe do tempo que lhe oferece a consciência. O tempo sucessivo, coordenada a que qualquer acontecimento pode ser reportado. Mas isso não significa que na vigília estejamos constantemente presos a esse tempo. Dele caímos para a atemporalidade do sonho. O espanto e a estranheza, por exemplo, criam uma espécie de desprendimento desse tempo sucessivo, formam um parênteses que se fecha, e um instante depois, o sujeito já se instalou no momento correspondente do tempo, agarra, por assim dizer, o tempo em marcha, o que quer dizer que se serve dele como de um instrumento. A pessoa dispõe de tempo porque pode pará-lo, pode desentender-se do que continua a acontecer e retirar-se. O “ensimesmamento” é uma retirada do tempo, ao tempo do sonho –atemporalidade – ou a um ritmo mais lento. É a retirada em que nasce o pensamento, um parênteses também, um tempo em branco onde o pensamento nasce.
A pessoa faz-se no tempo, realiza-se no tempo. A temporalidade não é decadência, não é senão meio de realização. A intersecção da pessoa no que tem de imóvel com o tempo é a própria vida humana. Há dois modos de imobilidade. O acto, ser já: a pessoa como princípio. A inércia da psique ávida e quieta, incapaz de se movimentar por si mesma, apenas tão somente de “tender a”, de avidez, de desejo passivo.
A psique é a matéria da vida humana; o tempo, o meio.
A adaptação ao meio, para o homem, é a adaptação ao seu meio. Todos os animais têm um meio ao qual adaptar-se. O homem não, diz Max Sheler. Mas o homem tem o tempo, os seus múltiplos tempos."

Maria Zambrano, O Sonho Criador (publicado pela primeira vez em 1965 no méxico pela universidade veracruzana, em portugal pela assírio e alvim em agosto de 2006)


Sobre as acções, o pensamento, mas sobretudo, as palavras, aqui fica outro ex_certo, a-descoberto aqui.


"Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente." Ou seja, algo muito parecido com um blog. Mas três meses depois ele escreve: "Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho dez ou quinze assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiado ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público...".

08 agosto 2008

Realidade_Radical

"A minha obra é um caso executivo da mesma doutrina. A minha obra é, em essência e presença, circunstancial. Com isto quero dizer que o é deliberadamente, porque sem deliberação, e ainda contra todo o propósito contrário, é claro que nunca o homem fez nenhuma coisa no mundo que não fosse circunstancial."
Ortega y Gasset, 1932 in Obras Completas



A observação e reflexão deliberada daquilo que o homem faz e do que faz com os outros, ou seja, os costumes que não são mais que respostas anquilosadas do homem a problemas concretos, cuja experiência será útil a outros contemporâneos e sucessores que as receberão em forma de práticas sociais, constituem o novo campo deoperações, a vida social, a vida individual: a realidade radical, porque nela radicarão os restantes problemas, inclusive os mais importantes, que não serão subplantados, mas deslocados; não perderam a importância, mas o local que tinham ocupado. Os velhos objectivos da filosofia não mudam, mas são vistos de outra perspectiva. É isto que quer dizer a interrogação de 1914 que tantas suspeitas e temores levanta: "´Quando nos abriremos à convicção de que o ser definitivo do mundo não é matéria nem alma, não é coisa alguma determinada, mas sim uma perspectiva?"

Esta mudança, que significa aceitar o inexorável, ou seja, a realidade que é a vida humana na qual radicam o eu pensante solitário, o espírito, o ser, o ente, a substância... configura uma razão vital como método e órgão de apreensão das conexões dessa realidade, conexões essas que sempre existiram, mas que nunca foram pensadas deliberadamente, dado que esta tarefa foi até agora aplicada em campos estritamente fenomenológicos, empíricos ou em elaborações puramente teóricas, estádios anterior e posterior, respectivamente, do conhecimento ingénuo da realidade.

Francisco López Frías: Pensamento (décimo nono volume da colecção do Público - Grandes Pensadores - sobre o autor anterior)

- Começam a surgir as conexões que me impeliram para este meio de comunicação... mas, pelas circunstâncias da vida, agora aqui, numa nova realidade que me fará crescer noutros sentidos! - Ah, tenham cuidado com o que desejam, pode mesmo realizar-se!