Pois é, tenho uma porra de uma educação cristã, cheia de princípios e preconceitos morais que são levados com as marés de natureza instintiva e corpórea, com preias e baixas rés anímicas (assisto em directo ao roubo de flores nos aliados, à família do gana em entrevista, à partida do papa), com marés-vivas de racionalidade levantadas pelos construtos desta cultura.
Neste dia do substituto do traidor que o ajudou a ser pregado pelo tempo no nosso quotidiano, desisto novamente de espíritos missionários: que cada um pense e sinta o que quiser, que se orgulhe dos seus medos e que faça o seu caminho, inevitavelmente conjunto, inevitavelmente interrompido. Estamos aqui todos neste vórtice futurível e só quero uma violenta mescla das fés silenciosas no universo eterno...
(A_dEUS e que não volte!)
14 maio 2010
10 maio 2010
Labrys_Feast II
"As pessoas sentiram sempre uma admiração, onde se mistura o respeito e a inquietação, por esses homens estranhos que previam o futuro. Porque o futuro é essa região do tempo onde nós os homens na realidade vivemos. A vida, não esqueçamos, é um trabalho que se faz andando para a frente. O que nos importa e inquieta é o que pode passar-se no momento que está para vir, o imediato e o longínquo. O homem está a todo o instante projectado sobre esse vazio pavoroso que é o porvir. Ora bem, digo que o futuro, o porvir é uma coisa vazia diante de nós, porque é a dimensão problemática da nossa vida. Nunca sabemos o que nos vai trazer, o que nos vai acontecer. É o essencialmente inseguro. [...] Tem sido normal que a história seja prevista. A história humana, apesar da constante intervenção do acaso, é algo assim como uma melodia, e quem sabe receber em si com intensidade e pureza o troço que dela soou até uma determinada data, sente brotar dentro de si o resto da melodia que soa em direcção ao futuro. Para isso só é preciso ter absolutamente livres as raízes do seu ser; mas, como os povos que são grades em determinada actualidade estão demasiado prisioneiros do presente, demasiado ocupadoscom os negócios e conflitos do presente, é insólito que haja neles homens radicalmente abertos e suficientemente abertos a essas visões etéreas do porvir."
A Rebelião das Massas 1930 - Ortega y Gasset
A_Bout:
Time_Less
09 maio 2010
Labrys_Feast I
"A vida humana tem de estar, pela sua própria natureza, dedicada a alguma coisa, a um empreendimento glorioso ou humilde, a um destino ilustre ou trivial. Trata-se de uma condição estranha, mas inexorável, inscrita na nossa existência. Por um lado, viver é algo que cada qual faz por si e para si. Por outro lado, se essa vida minha, que só a mim me importa, não é entregue por mim a algo, caminhará desconjuntada, sem tensão e sem “forma”. Nestes anos temos assistido ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que avançam perdidas no labirinto de si mesmas por não terem a que entregar-se. Todos os imperativos, todas as ordens ficaram
A Rebelião das Massas 1930 - Ortega y Gasset
A_Bout:
Time_Less
06 maio 2010
01 maio 2010
Both_Sides
A sala onde me enclausuro até é agradável ao final da tarde pós_molhada, com a luz forte que a enche, recortada pelas grades. Silencia-se a semana e as decisões gravitam sem forças de atracção. Salva-se a técnica apurada mas descuidada nos tempos, o bunker de rolos de pêlos para corridas de sono em que se transformou a casa de ramos secos, o desgaste do papel biográfico individual - a feira rápida antes do rally da falperra para o colega desolado com a mãe conselheira que me arrastou até penedones para me castelar em monte_alegre onde convergem em subducção; romance(s) de genji, agenda guevara e o de abaixo antes de verificar porque não quero ali ficar. O amor vai para o algarve. Parabéns à mãe.
E hoje, em conta_quilómetros de linha férrea, prendo-me na catenária para descarregar a tensão: mocas lindas, livres, ressurgir pelos amigos encontrados na bruma das robíneas e dos vulcões que co_insistem, agregam e expiram. Quero homenagear o jantar à noite, voltar a ter o sorriso da criança grande e o chá de amanhã em frente ao mar...
E hoje, em conta_quilómetros de linha férrea, prendo-me na catenária para descarregar a tensão: mocas lindas, livres, ressurgir pelos amigos encontrados na bruma das robíneas e dos vulcões que co_insistem, agregam e expiram. Quero homenagear o jantar à noite, voltar a ter o sorriso da criança grande e o chá de amanhã em frente ao mar...
"À porta de uma pequena construção, o director despediu-se: «Deixo-o agora, senhor Meursault. Estou às suas ordens, no escritório. Em princípio, o enterro está marcado para as dez horas da manhã. Pensámos que o senhor podia assim passar a noite a velar. Uma última coisa: parece que a sua mãe exprimiu várias vezes, aos amigos, o desejo de ter um enterro religioso. Tomei à minha conta este encargo. Mas queria pô-lo a par.» Agradeci-lhe. Embora sem ser ateia, enquanto viva a mãe nunca pensara na religião. Entrei. Era uma sala muito clara, caiada e coberta por uma vidraça. Mobilavam-na algumas cadeiras e cavaletes em forma de XX. Dois deles, ao meio da sala, suportavam o caixão coberto. Viam-se apenas parafusos brilhantes, mal enterrados, destacando-se da madeira pintada de casca de noz. Perto do caixão estava uma enfermeira árabe, de bata branca, com um lenço colorido na cabeça. Neste momento, o porteiro entrou por trás de mim. Devia ter corrido. Gaguejou: «Fecharam-no, mas eu vou desaparafusá-lo, para que o senhor a possa ver.» Aproximava-se do caixão, quando eu o detive. Disse-me: «Não quer?» Respondi: «Não.» Calou-se e eu estava embraçado, porque sentia que não devia ter dito isto. Ao fim de uns momentos, ele olhou-me e perguntou: «Porquê?», mas sem um ar de censura, como se pedisse uma informação. Eu disse: «Não sei.» Então, retorcendo os bigodes brancos, declarou, sem olhar para mim: «Compreendo.» O homem tinha uns bonitos olhos azuis-claros e uma pele um pouco avermelhada. Deu-me uma cadeira e sentou-se também, um pouco atrás de mim. A enfermeira levantou-se e dirigiu-se para a porta."
Albert Camus in O Estrangeiro pela Livros do Brasil, Pag.31
A_Bout:
Die_Hairy,
Hard_Monnie,
Litter_Race
26 abril 2010
Madrugada
Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.
Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma_flor
Fazem-se as margens do meu povo
Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acorda vozes_arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais
Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia
Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes e arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais
Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes_arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.
Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma_flor
Fazem-se as margens do meu povo
Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acorda vozes_arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais
Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia
Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes e arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais
Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes_arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais
Letra e música: José Niza / José Luís Tinoco
Maestro: Pedro Osório | Intérprete: Duarte Mendes
Ao Amor, pela madrugada de hoje! (porque não precisa de mais nada)
A_Bout:
Time_Less
25 abril 2010
Neigh_Bour Wood's
Da proximidade de todas as gentes, umas sobre as outras, perpendiculando os trilhos... dado o acumular dos registos, não se conseguem finalizar os processos sem a autonomia desejada (mas não dada), a sobrecarga tecnológica nin_cessária, o desencontro das metodologias interiorizadas, o desrespeito das e pelas chefias, a emergência de um projecto globalizante para finalizar esta estadia. E assim, com pouco dormir e muito ecrã a rolar nos olhos, cumpre-se a promessa, passa-se o recibo, a_percebe-se o columbano, traz-se um ramo de abeto podado e pedido nas vivendas das olaias, afixam-se os cursos da casa/mãe, a senhora do andar de baixo convida-me a tomar café e entro na cadeia de favores com o senhor da oficina , pagando-lhe o dele, divulgando a disponibilidade pela vizinhança nesta babel.
E acelera-se a partida, com loiça lavada, conduz-se estremunhado com os óculos escuros que velam a incandescência do minho até cruzar a neblina que se levanta do rio com o novo dia. A beira pelo litoral é longa - delta do vouga, mondego, pranto e lis ondulantes por veredas de verdes pinhos. Deixo o veículo à porta de chegada, sob bom abrigo e desço pela boca do metro que me devolve ao parque, aos livros vazios, na busca pública da colecção histórica até à terra da utopia (já em casa). Atravesso a república pelos céus cinzentos que se completam num sábado solitário: descafeinado, montras de flores, paragem no sinal vermelho da miguel bombarda (the entrance of campo pequeno? Right there!) e atinjo o ponto de saída. Metade de metade da carruagem é ocupada por uma grande família romi e os restantes passageiros torcem os narizes e as consciências (mas não muito): a naturalidade dos sorrisos, a cumplicidade das línguas, a nossa animalidade perdida, ali, inocente pela solidariedade do clã. A senhora de trás interpela o rapaz sobre a realidade das nações e gerações que hoje se cruzam (grand-child skate boarder, first time here, marriage and afection, dictature and democracy, live of world internacional founds, voluntarism, information, connecting and meeting people) - crítica, lúcida, generosa, justa.
Última estação até ao quiosque em frente à nortenha e desgaste sentido em acumulado de tanto jogo de vidas. É a família que cresce sofrida, depois de diminuição abrupta, que descansa por uma noite para se recompor. De volta, percorre a superfície calma da planície entre explosões roxas, brancas e amarelas, vendo os corais rochosos no alto dos outeiros, salientes no mar verde de trigo fresco. E o barco atrasa a partida pelo feriado revolucionário e aproveita para visitar o lar da outra margem. Finalmente sai da aldeia galega por entre os istmos do tejo, dentro do chiado. Ao longe, a cidade na linha de água... piramidando a construção desta sociedade nova, a caminho dos céus.
E acelera-se a partida, com loiça lavada, conduz-se estremunhado com os óculos escuros que velam a incandescência do minho até cruzar a neblina que se levanta do rio com o novo dia. A beira pelo litoral é longa - delta do vouga, mondego, pranto e lis ondulantes por veredas de verdes pinhos. Deixo o veículo à porta de chegada, sob bom abrigo e desço pela boca do metro que me devolve ao parque, aos livros vazios, na busca pública da colecção histórica até à terra da utopia (já em casa). Atravesso a república pelos céus cinzentos que se completam num sábado solitário: descafeinado, montras de flores, paragem no sinal vermelho da miguel bombarda (the entrance of campo pequeno? Right there!) e atinjo o ponto de saída. Metade de metade da carruagem é ocupada por uma grande família romi e os restantes passageiros torcem os narizes e as consciências (mas não muito): a naturalidade dos sorrisos, a cumplicidade das línguas, a nossa animalidade perdida, ali, inocente pela solidariedade do clã. A senhora de trás interpela o rapaz sobre a realidade das nações e gerações que hoje se cruzam (grand-child skate boarder, first time here, marriage and afection, dictature and democracy, live of world internacional founds, voluntarism, information, connecting and meeting people) - crítica, lúcida, generosa, justa.
Última estação até ao quiosque em frente à nortenha e desgaste sentido em acumulado de tanto jogo de vidas. É a família que cresce sofrida, depois de diminuição abrupta, que descansa por uma noite para se recompor. De volta, percorre a superfície calma da planície entre explosões roxas, brancas e amarelas, vendo os corais rochosos no alto dos outeiros, salientes no mar verde de trigo fresco. E o barco atrasa a partida pelo feriado revolucionário e aproveita para visitar o lar da outra margem. Finalmente sai da aldeia galega por entre os istmos do tejo, dentro do chiado. Ao longe, a cidade na linha de água... piramidando a construção desta sociedade nova, a caminho dos céus.
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