30 abril 2011

Some(Thing)_Shape(d'Like)


 Até oito de Maio no Teatro Camões - e depois por todo o País

"Poderá andar-se metido num amor a contragosto? Claro que sim. Um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre sabe/palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada pode fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco. «Reconquista-me!», diz o objecto desse amor a contragosto, entre mostrando-se e furtando-se logo de seguida. E o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.
Como se chega - e para quê - a uma situação destas? Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento. «Mas que figurões!», dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles - o sofrente e o que faz sofrer - não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, de fora e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva. De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo. Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer: - Olha do que eu me safei! - O mundo recobrará cor e significado. Quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar este processo de salvação. A Caparica não é longe."

Alexandre O'Neill 1980 (roubado descaradamente daqui)

29 abril 2011

Border_Line


Os fantoches de Kissinger/Com as minhas tamanquinhas
Entretanto a medusa mundana continua a estender os seus tentáculos, atravessando as fronteiras que julgámos eternas para nos confrontarmos na nossa alteridade em migrações de que sempre fizeram parte os exílios forçados por guerras, pestes e fomes sentidas e decididas pelos interesses individuais, fraquezas, arrogâncias e usuras dos que teimam em existir. Afinal partilhamos mais do que espaços: sou pelo partido dos animais todos, à excepção do homem cujas vidas continuam a expurgar-se repelentemente em abraços fatais.


Mulher da erva/Cantigas do maio
Já com a noite toda em vinte e três, visito os antigos templos orgíacos abaixo do ginásio no monte dos livros e zonas costeiras de permanências estivais; adormeço até à tarde da preparação molhada (com amigas que querem ganhar o jogo da rolha), em descida abrupta por caminhos enviezados na margem do vascão que atravessamos nas passadeiras, onde nos rebolamos nas águas ludras e subimos a custo íngremes passagens enquanto o céu escurece em faixas até ao solo e exala ruídos extremos.


Os eunucos/Traz outro amigo também
No regresso ribacima, nova paragem de espera por encontros fortuitos, surge o jovem banqueiro que também o fez, e assim nos desejámos e sentimos, calma e sôfregamente com intervalo para outra parelha rodada, repetimos e confidenciamos os trajectos coincidentes, aguardando contactos; antes da saída, o nómada acabado de chegar do irão confessa a sua admiração no desenvolvimento e aceitação locais, apenas limitado nessa liberdade de expressão e reunião entre géneros mas plenos de outros cruzares.


Está a acabar o prazo de denúncia do contrato deste arrendamento. E depois?

26 abril 2011

Schönen_Steine

E para relaxar das festas e celebrar a nova vida com uma gargalhada, passamos a publicidade:

Ainda a contagem da feist, uma rapsodia animal e o cocas_james murphy!


Tudo isto, graças às amigas que me trouxeram à cidade livre!

22 abril 2011

Ishtar_Soul


Programa Tesis - 1ªparte

"En par de los levantes de la Aurora"
Por amplias que sean sus alas, la luz auroral que sigue al alba es como un boquete, un lugar que tiende a absorber y ofrecer al par la inminencia de que algo inconcebible aparezca. ¿Un ser? Un animal quizás, un ser viviente, se dibuja casi, está al dibujarse. Un ser viviente de aliento y de pasión, un fuego oscuro por indiscernible que luego resulta ser simplemente blanco. Un blanco inextenso, un ser sin extensión. ¿Pensamiento? Mira tan sólo. Es una mirada, ya que la mirada de todo aquello que se manifiesta visiblemente es lo único que no tiene extensión y, aun más, la borra.
Llega la mirada anulando la distancia, quien la recibe queda traspasado, raptado o fijado; fijado, si es la mirada de la luz. Y cuando la luz nos fija es que nos mira, y, al mirarnos, ¿se sabría decir lo que sucede? Y, por no saberlo decir, se borra: no crea memoria.
Y así, de esta mirada de la luz, nace, podría nacer, ha nacido una y otra vez un pensamiento sin memoria. Un pensamiento liberado del esfuerzo de la pasión de tener que engendrar memoria y, en su virtud, liberado también de toda representación y de todo representar.

Programa Tesis 2ªparte

Delirio del incrédulo

Bajo la flor, la rama;
sobre la flor, la estrella;
bajo la estrella, el viento.
¿Y más allá?
Más allá, ¿no recuerdas? , sólo la nada.
La nada, óyelo bien, mi alma:
duérmete, aduérmete en la nada.
[Si pudiera, pero hundirme... ]
Ceniza de aquel fuego, oquedad,
agua espesa y amarga:
el llanto hecho sudor;
la sangre que, en su huida, se lleva la palabra.
Y la carga vacía de un corazón sin marcha.
¿De verdad es que no hay nada? Hay la nada.
Y que no lo recuerdes. [Era tu gloria.]
Más allá del recuerdo, en el olvido, escucha
en el soplo de tu aliento.
Mira en tu pupila misma dentro,
en ese fuego que te abrasa, luz y agua.
Mas no puedo.
Ojos y oídos son ventanas.
Perdido entre mí mismo, no puedo buscar nada;
no llego hasta la nada.
  • Descoberto a partir do blog !la polla en verso! (escrito por un periodista con total autonomía e independencia de los regímenes literarios) 
María Zambrano 1904-1991

19 abril 2011

Zauber_Berg

Era uma vez uma princesa que recebeu um palácio de presente de aniversário pela maioridade. E à terceira família, em nova fase de ascendência, reconstrói o extinto solar da quinta, fechando o jardim romântico a norte, rasgando-lhe um vinhedo em cruz para rentabilizar o interesse pelo alvarinho - abrindo a entrada a oriente com a magnanimidade devida expressa na fachada: trinta e uma janelas para a nova estrada nacional. Não casou e na terceira torre está fechada a nonagenária.
Lá dentro, a escadaria imponente coberta de mitologia em azulejos ondulantes conduz-nos ao busto que centra o jardim de inverno e começa o mito recorrente do cisne em vários elementos. Sou acompanhado pela guia que vai abrindo as portadas na sua primeira visita em exclusivo para mim: na biblioteca, a explicação do brasão e as estantes cheias de um século de jornais deteriorados, os pesados lustres já electrificados, retratos de reis e rainhas com efeitos ópticos, paredes forradas em papel imitando rendas, o mobiliário estilo império e chinês, bem como os objectos e as pratas, os tectos belamente decorados de frescos e frisos ou na imitação de madeira, o clavicítero na sala de fumo, o rico dossel do quarto real e a velha entrada convertida em sala de armas com a estátua de diana ao centro. Ajudo-a com os ferrolhos e no pátio das camélias, ladeados de ceres e flora, vai confessando os seus projectos de requalificação do espaço que ao poucos se torna público; a entrecortada alameda dos plátanos, a das tílias que atravessamos lentamente onde me indica por entre o matagal, o futuro salão de chá; ao fundo o antigo portão e as novas vinhas, enquanto descemos o talude e discutimos eno_sabores; penetramos as orlas e na ponte sobre um lago selvagem e verde, aponta-me a ilha dos amores como próximo parque de merendas, circundamo-lo e nichos para corte escondidos sucedem-se, uma azenha fictícia já semroda mas de murmúrio aquático e a surpresa no alto – o pombal que alberga o esquecido sistema hídrico abastecido pelas minas. Ainda a sala privada de baile no exterior, com recantos na sebe labiríntica, a visita às caves que na penumbra mostram os lagares graníticos, os tonéis gigantes e as modernas cubas sob as arcadas templárias, cumprimentamos o pessoal da casa nas traseiras, ainda uma linda capela macónica aberta na primeira torre, com os níveis piramidais bem distintos, altar com sant’Ana ao centro, a ensinar a virgem a ler, o patrono São Sebastião à direita, púlpito de um lado e órgão do outro; e por último o pequeno teatro para a família com os cenários imagéticos daquele lugar orfético e feérico. Despedimo-nos rápido porque os fregueses começam a chegar. Já a subir os montes para os arcos, choro pela paisagem que vou perder.

(para imagens sem palavras, percorram o site no último link de Domingo - afinal há ainda tanto para escolher)


"II nous semble qu'il est plus moral de se perdre et même de se laisser dépérir que de se conserver. Les grands moraliste n'étaient point de vertueux, mais des aventuriers dans le mal, des vicieux, des grands pècheurs Qui nous enseignet à nous incliner chrétiennement devant la misère. Tout ça doit te déplaire beaucoup, n'est-ce pas?"

Clawdia Chauchat n'A Montanha Mágica - Thomas Mann

17 abril 2011

Ivory_Tower


Este filme foi lançado em delírio há oito meses - apenas para lembrar que a vida é um Jogo!
Ver entrevistas com os "actores_irmãos" Gonzales e Tiga.  Sites oficiais do MC, DJ e Bride!
Deixo-vos ainda duas pérolas da banda sonora (naturalmente).

«He was a person without an alternative, and if any had ever been open to him, at an odd hour or two, somewhere in his inner dimness, he had long since closed the gate against it and now revolved in the hard-rimmed circle from which he had not a single issue. You couldn’t retire without something or somewhere to retire to, you must have planted a single tree at least for shade or be able to turn a key in some yielding door; but to say that her extraordinary parent was surrounded by the desert was almost to flatter the void into which he invited one to step. He conformed in short to his necessity of absolute interest – interest, that is, in his own private facts, which were facts of numerical calculation altogether: how could it not be so when he had dispossessed himself, if there had even been the slightest selection in the matter, of every faculty except the calculating? If he hadn’t thought in figures how could he possibly have thought at all – and oh the intensity with which he was thinking at that hour! It was as if she literally watched him just then and there dry up in yet another degree to everything but his genius. His genius might at the same time have gathered in to a point of about the size of the end of a pin. Such at least was the image of these things, or a part of it, determined for her under the impression of the moment.

I am Europe - Arts & Crafts

He had come over with the same promptitude every morning of the last fortnight and had stayed on nearly till luncheon, sitting about in different places as if they were equally his own, smoking, always smoking, the big portentously ‘special’ cigars that were now the worst thing for him and lost in the thoughts she had in general long since ceased to wonder about, taking them now for granted with an indifference from which the apprehension we have noted was but the briefest of lapses. He had over and above that particular matter of her passing perception, he had as they all had, goodness knew, and as she herself must have done not least, the air of waiting for something he didn’t speak of and in fact couldn’t gracefully mention; with which moreover the adopted practice, and the irrepressible need of it, that she had been having under her eye, brought out for her afresh, little as she invited or desired any renewal of their salience, the several most pointed parental signs – harmless oddities as she tried to content herself with calling them, but sharp little symbols of stubborn little facts as she would have felt them hadn’t she forbidden herself to feel.»

You can Dance - Arts & Crafts

The Ivory Tower
(1917) Henry James

Palm_Branch

Toda uma noite de hesitação e intermitência na decisão de descer até à Terra sem Sombra para ver as mãos que tocariam ali tão perto, ajudar a salvar os peixes com que cresci. Mas assim não foi, nem a ida à cidade_berço para o almejado concerto nos seus paços (acontecera no dia anterior), o que me fez encontrar a cooperativa em frente, descer o largo e percorrer as movimentadas e nocturnas muralhas até às bouças que roçam a universidade... Hoje o último passeio da bicha nesta estadia: cruzamos o rossio, as esplanadas cheias que acendem os jogos de água da avenida, as tascas escondidas e a subida pela galeria. Não me conformo e a pesquisa rápida leva-me à casa das artes para o encontro de um brilhante elenco/encenação com o encanto redescoberto nas palavras do Rei. Regresso pela cósmica colina vendo as luzes no vale sob um luar estrondoso...
Chegada ao Chipre - Otelo
Amanhã é tempo de procissões na paróquia, abertura do festival e a praia eterna. Vivam os passos em volta! Com sorte, aqui ser coroado no dia seguinte...
Água de Beber - Frank Sinatra/Tom Jobim