27 março 2011

Hiero_Drama

«Há milhares de anos o homem compreendeu que nada é mais terrível do que cultivar a idolatria porque o ídolo não passa de um pedaço de madeira. Se procurarmos o sagrado, decisão inteiramente pessoal, claro, nesse caso não devemos transigir: ou pertence a todos os momentos ou não existe. Não podemos assumir um sagrado que funciona ao domingo e dorme nos outros dias da semana. É absurdo pensar que o sagrado existe no alto da montanha e não existe no vale.
(...) Se o invisível não é obrigado a manifestar-se, no entanto, pode fazê-lo em qualquer sítio e a qualquer momento, por meio de qualquer pessoa, desde que as condições sejam as justas. Estou pois convencido que não serve de nada reproduzir rituais sagrados do passado que têm poucas hipóteses de nos levar ao invisível. A única coisa que pode ajudar-nos é o sentido do presente. Sentir que o momento presente está cercado de modo especialmente intenso e que as condições são favoráveis ao sphota, esse "relâmpago" que surge no momento do som certo, do gesto certo, do olhar certo, da troca certa. Neste caso, entre milhentas circunstâncias completamente inesperadas, o invisível pode surgir, através de uma forma, claro. A procura do sagrado é portanto uma atitude, uma pesquisa. O invisível pode manifestar-se nos objectos mais vulgares uma vez que a metamorfose, a alquimia, esteja presente. A garrafa de água de plástico (...) pode ser transformada e impregnada pela aparição do invisível, no caso de a pessoa atingida estar em estado de receptividade e repleta de talento.
O sagrado é uma transformação, em termos de qualidade, do que de início não é sagrado. O teatro passa pelas relações entre os homens que, obrigatoriamente já que pertencem ao mundo dos homens, não são sagrados. O invisível aparece atrás do visível que é a vida dos homens.»

Peter Brook - O Diabo é o aborrecimento (Conversas sobre Teatro 1993- Asa)


King Lear


Marat/Sade


Mahabharata

1 comentário:

pinguim disse...

Que boa ideia trazer até aqui um dos mais arrojados e importantes encenadores teatrais de sempre: Peter Brook!