18 agosto 2008

Tempo_Consciência Pessoal

"A pessoa dispõe do tempo que lhe oferece a consciência. O tempo sucessivo, coordenada a que qualquer acontecimento pode ser reportado. Mas isso não significa que na vigília estejamos constantemente presos a esse tempo. Dele caímos para a atemporalidade do sonho. O espanto e a estranheza, por exemplo, criam uma espécie de desprendimento desse tempo sucessivo, formam um parênteses que se fecha, e um instante depois, o sujeito já se instalou no momento correspondente do tempo, agarra, por assim dizer, o tempo em marcha, o que quer dizer que se serve dele como de um instrumento. A pessoa dispõe de tempo porque pode pará-lo, pode desentender-se do que continua a acontecer e retirar-se. O “ensimesmamento” é uma retirada do tempo, ao tempo do sonho –atemporalidade – ou a um ritmo mais lento. É a retirada em que nasce o pensamento, um parênteses também, um tempo em branco onde o pensamento nasce.
A pessoa faz-se no tempo, realiza-se no tempo. A temporalidade não é decadência, não é senão meio de realização. A intersecção da pessoa no que tem de imóvel com o tempo é a própria vida humana. Há dois modos de imobilidade. O acto, ser já: a pessoa como princípio. A inércia da psique ávida e quieta, incapaz de se movimentar por si mesma, apenas tão somente de “tender a”, de avidez, de desejo passivo.
A psique é a matéria da vida humana; o tempo, o meio.
A adaptação ao meio, para o homem, é a adaptação ao seu meio. Todos os animais têm um meio ao qual adaptar-se. O homem não, diz Max Sheler. Mas o homem tem o tempo, os seus múltiplos tempos."

Maria Zambrano, O Sonho Criador (publicado pela primeira vez em 1965 no méxico pela universidade veracruzana, em portugal pela assírio e alvim em agosto de 2006)


Sobre as acções, o pensamento, mas sobretudo, as palavras, aqui fica outro ex_certo, a-descoberto aqui.


"Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente." Ou seja, algo muito parecido com um blog. Mas três meses depois ele escreve: "Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho dez ou quinze assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiado ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público...".

8 comentários:

Arion disse...

compreendo muito bem a segunda citação! Abraço!

Ophiuchus disse...

Arquétipos, caracteres gravados, a Nossa História envolve-nos, apenas criando instrumentos mais complexos... sempre as mesmas razões!E muita criatividade!

sp disse...

A história é sempre uma faca de dois gumes: para aprendermos e como defenderemos esse mesmo passado que será sempre futuro!
Abraço peludo.

Special K disse...

é assim o tempo. Gostei da imagem no cabeçalho.
Um abraço.

Ophiuchus disse...

O tempo rumina-nos... ou nós a ele. Abraço Grande, SP

Passa, K. A imagem veio de ti, a citação está ao fundo, na coluna lateral. Agradeço e exponho também.

Special K disse...

Pois só agora é que vi. Com descaramento ou não, fizeste bem em roubar, está muito boa. Obrigado pela referência mas não era necessária.
Um abraço

Paulo disse...

ah, em Zambrano, a philo_sophie é poesia da mais pura que existe. aterrador, luminosa. desde que ando nos blogues nunca o tinha dito, mas fizeste-me recordar como sou apaixonado por essa mulher! tenho que reencontrá-la inclusive nesse sonho criador. e quando falar dela será com explosões e foguetes e o coração nas mãos como poucas palavras me conseguem comover (agora, constato que, são quase todas de mulheres, as palavras que me comovem fatalmente). obrigado pelo acto redentor! pela epifania do dia claro no meio do meu cinzentismo!

Ophiuchus disse...

Citações são obrigatórias nos agradecimentos inspiradores, K.

Paulo, o mesmo se aplica pela iluminação das Suas palavras (escreve, amigo, escreve) De nada!

Abraços