22 setembro 2008

Under_Standing

"A linguagem foi concedida ao homem para fazer dela um uso surrealista. Na medida em que lhe é indispensável fazer-se compreender, ele consegue, bem ou mal, exprimir-se e assim assegurar o desempenho de algumas funções, das mais banais. Falar, escrever uma carta não lhe oferecem nenhuma dificuldade real, desde que, fazendo-o, ele não se proponha a um objectivo acima da média, isto é, desde que se limite a entreter-se (pelo prazer de se entreter) com alguém. Ele não fica aflito com as palavras que virão, nem com a frase que virá, terminada a sua. Ele será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples. À falta de tiques contraídos no convívio com os outros, ele pode opinar espontaneamente sobre alguns poucos assuntos: para isso não lhe é preciso antes "contar até dez" nem ter fórmulas preparadas. Quem poderá tê-lo convencido de que esta faculdade de "falar logo à primeira" só serve para desserví-lo, quando ele se propõe estabelecer ligações mais delicadas? Ele não deve se recusar a falar ou escrever de improviso sobre nada. Ouvir-se, ler-se, não tem outro efeito senão o de suspender o oculto, o admirável auxílio. Não conto para me compreender (chega! sempre me compreenderei). Se esta ou aquela das minhas frases me traz na hora uma leve decepção, confio na frase seguinte para redimí-la, cuido para não recomeçá-la ou aperfeiçoá-la. A mínima perda de ímpeto ser-me-ia fatal. As palavras, os grupos de palavras que se sucedem exercem entre si a maior solidariedade. Não me compete favorecer estas em detrimento daquelas. Quem deve intervir é uma miraculosa compensação: e ela intervém.
Não só esta linguagem sem reservas que procuro tornar sempre válida, que me parece adaptar-se a todas as circunstâncias da vida, não só esta linguagem não me desfalca de nenhum de meus recursos, mas ainda me confere uma extraordinária lucidez precisamente no domínio onde eu menos dela esperava. Posso até afirmar que ela me instrui, e como tal já me aconteceu utilizar surrealmente palavras cujo sentido eu tinha esquecido. Pude verificar depois que o uso por mim feito correspondia exactamente à sua definição. Isto poderia fazer crer que não se "aprende", que sempre se "reaprende". Há expressões felizes com as quais me familiarizei. E não me refiro à consciência poética dos objectos que só pude adquirir pelo contacto espiritual mil vezes repetido.
É ainda ao diálogo que as formas da linguagem se adaptam melhor. Aí, dois pensamentos confrontam-se; enquanto um ser se revela, o outro ocupa-se dele, mas como? Supor que o incorpora seria admitir que, por algum tempo lhe é possível viver inteiramente deste outro pensamento, coisa muito improvável. De facto, a atenção que lhe é dada é totalmente exterior; só tem ensejo de aprovar ou de desaprovar, geralmente desaprovar, com toda a deferência de que o homem é capaz. Este modo de linguagem não permite, aliás, chegar ao fundo de qualquer assunto. A minha atenção, vítima de uma solicitação que não pode decentemente repelir, trata o pensamento alheio como inimigo; na conversação usual ela "censura-o " quase sempre pelas palavras, pelas figuras de que se serve; ela põe-me em condições de tirar partido delas, desnaturando-as. Isto é tão verdade que em certos estados mentais patológicos, onde os distúrbios sensoriais afectam toda a atenção do doente, este limita-se, pois continua a responder às perguntas, a pegar na última palavra pronunciada junto a ele, ou no último segmento de frase (surrealista) que restou no seu espírito:


"Que idade tens? " – Tens (Ecolalia)
"Como te chamas?" – Quarenta e cinco casas (Síndrome de Ganser, ou das respostas absurdas)


Não há conversa onde não entre algum restício dessa desordem. O esforço de sociabilidade aí reinante e a nossa grande prática é que nos disfarçam esse facto, por pouco tempo. Também é a grande fraqueza do livro entrar sempre em conflito com os seus melhores leitores, quero dizer, com os mais exigentes. No pequeníssimo diálogo que acima improvisei, entre o médico e o alienado, é este, aliás, quem leva vantagem: pois as suas respostas impõem-no perante o médico examinador – e não é o mais forte? Talvez. Ele tem liberdade de não se importar com o seu nome nem com a sua idade.
O surrealismo poético, ao qual consagro este estado, dedicou-se até agora a restabelecer o diálogo na sua verdade absoluta, isentando os dois interlocutores das obrigações de cortesia. Cada um deles simplesmente prossegue no seu solilóquio, sem procurar tirar daí um prazer dialéctico particular nem se impor ao seu vizinho, de forma alguma. Os conceitos emitidos na conversa não visam, como geralmente, o desenvolvimento de uma tese, tão insignificante quanto se queira, eles são tão desafectados quanto possível. Quanto à resposta que reclamam, ela é, em princípio, totalmente indiferente ao amor-próprio de quem falou. As palavras, as imagens não se oferecem senão como trampolim ao espírito de quem escuta."

Manifesto do Surrealismo - 1924, André Breton (um pouco abrasileirado, inspirado no Kaos desta vida...)

4 comentários:

sp disse...

As palavras são seres frágeis e nem sempre reais.

As palavras que não dizemos também podem matar.

As palavras que o nosso olhar alimentam sobem ao rosto e e tudo podem.

Bonito texto!

Kapitão Kaus disse...

Obrigado pela visita ao meu cantinho, kaótico, diga-se de passagem.

E pela bonita homenagem que aqui deixas, do Manifesto do Surrealismo, do André Breton.

(Comecei a ler o teu texto e reparei que ele não me era nada estranho. E depois reparo que era mesmo o Manifesto!:)))

VIVA A IMAGINAÇÃO! VIVA A POESIA!

:)

Abraço:)

Ophiuchus disse...

E disfarçamos muito bem esta fragilidade... Mas aqui estamos!
Grande Abraço, SP!

Viva, viva, viva, o encontro no olhar e na palavra! Até já, Kapitão!

sp disse...

sim, alguns disfarçam bem essa fragilidade, mas depois um dia o castelo cai por não suportar toda a água acumulada...

um abraço peludo e amigo!