05 setembro 2008

Vox_Infandua

[...]
“Sim, já sei que outros sentiram antes de mim o que eu sinto e exprimo; que muitos outros o sentem hoje, ainda que o calem, ainda que o calem. Porque não calo eu também? Pois, porque calam a maioria dos que o sentem; mas, mesmo calando-o, obedecem em silêncio a essa voz das entranhas. E eu não o calo porque é para muitos o que não deve dizer-se, o infando; e creio que é necessário dizer uma vez e mais outra o que não deve dizer-se. Que isso a nada conduz? Mesmo que levasse só os progressistas a irritarem-se, os que crêem que a verdade é consolo, já não seria pouco. Irritá-los e levá-los a dizer: pobre homem! Se empregasse melhor a sua inteligência!... Ao que alguém talvez acrescente que não sei o que digo, e eu responder-lhe-ei que talvez tenha razão – e é tão pouco ter razão! -, mas que sinto o que digo e sei o que sinto, e isso basta-me. E é melhor que nos falte a razão do que nos sobre.
E aquele que continuar a ler-me verá também como deste abismo de desespero pode surgir esperança, e como esta posição crítica pode ser fonte de acção e de labor humano, profundamente humano, e de solidariedade e até de progresso. O leitor que continuar a ler-me verá a sua justificação pragmática. E verá como para agir, e agir eficaz e moralmente, não há necessidade nenhuma das duas certezas opostas, nem da fé, nem da razão, nem, menos ainda, em caso nenhum – de escamotear o problema da imortalidade da alma ou deformá-lo idealisticamente, isto é, hipocritamente. O leitor verá como essa incerteza, e a dor dela e a luta infrutuosa para sair da mesma, pode ser, e é, base de acção e alicerce de moral.
E com isto, ser base de acção e alicerce de moral, o sentimento de incerteza e a luta íntima entre a razão e a fé e o desejo apaixonado por uma vida eterna, ficaria, segundo um pragmatista, tal sentimento justificado. Mas que conste que eu não busco esta consequência prática para o justificar, mas, antes, porque a encontro por experiência íntima. Não quero nem devo buscar uma justificação para esse estado de luta interior e de incerteza e de desejo; é um facto, e basta. E se alguém, encontrando-se nele, no fundo do abismo, não encontra mesmo aí motivos e incentivos de acção e de vida, e, por conseguinte, se suicida corporal ou espiritualmente – quer matando-se, quer renunciando a todo o labor de solidariedade humana – não serei eu quem o censure.”
[...]

Miguel de Unamuno Del Sentimiento Trágico de la Vida, Salamanca, 1912.
Agradecimento ao Valkirio pela imagem de Asclépio que trouxe de Rodes. E pelos votos de curas.

4 comentários:

Paulo disse...

Unamuno também não se lê indiferentemente. e o excerto que escolheste revela muito sobre o abismo. e perante o abismo, fico em silêncio: "Não quero nem devo buscar uma justificação para esse estado de luta interior e de incerteza e de desejo; é um facto, e basta."

grande abraço

Catatau disse...

Como sempre, Unamuno profundo, num leito palpável onde não esconde a irreverência.

sp disse...

"todo o labor de solidariedade humana" ou da honradez.

um abraço.

Ophiuchus disse...

Ex_Certos ou Errados, estamos todos para duvidar e confirmar das verdades alheias, também nossas...
Abraços